ALICE NO PAÍS DOS HAIKAIS
Nelson Sato
De Londrina
A poeta curitibana Alice Ruiz é uma das mais importantes criadoras do haikai à brasileira. Há quem a considere inclusive a mais bem dotada entre todos os que já enveredaram pelo gênero. Com 12 livros publicados, a ex-mulher de Paulo Leminski chegou a ser homenanegada pela Sociedade Japonesa de Poetas com um nome de haicaísta (Yuuka), juntamente com Helena Kolody.
Ao longo da década, Alice tornou-se a principal divulgadora desta prática poética trazida do Oriente ao dirigir uma série de oficinas literárias pelo País, atualizando a vocação itinerante do haikai, própria dos mestres japoneses. Nesta empreitada, formou discípulos em várias regiões incluindo São Paulo, Rio Grande do Sul, Bahia e Rondônia.
Na atual temporada, Alice circula com suas aulas de iluminação zen pelo Paraná. De hoje a quarta-feira, ela estará em Londrina a convite da Secretaria Municipal de Cultura. No mês passado, esteve em Maringá. Em novembro estará em Paranavaí e em dezembro na cidade de Cascavel. Mas as atividades de criação de Alice Ruiz não se restringem à modalidade dos três versos e dezessete sílabas.
Sua poética inclui poemas longos e letras de canção. Ela, aliás, acaba de faturar o primeiro lugar num concurso de livros inéditos de poesia promovido pela editora carioca Blocos e no qual passou à frente de 275 concorrentes. O livro, que será lançado mês que vem com o título Poesia Para Tocar No Rádio, vai incluir suas parcerias com os compositores Itamar Assumpção, Arnaldo Antunes, Chico César, José Miguel Wisnik e Alzíra Espíndola.
Mas não é a primeira vez que ela ganha um concurso literário. Em 1980, abocanhou o prêmio Melhor Obra Publicada no Paraná, e em 1989 levou para casa o troféu do Prêmio Nacional Jabuti de Poesia. A oficina de haikai que ela traz a Londrina será realizada de hoje a quarta-feira, das 14 às 18 horas, no Hotel Sumatra. A inscrição é gratuita. Os interessados devem ligar para o tel. (43) 321-6600 ou 330-3868.
Na entrevista que segue, Alice Ruiz fala de haikai, crítica, poesia contemporânea, parceria com compositores e outros assuntos.
Qual o perfil do público das oficinas de haikai?
É bem heterogêneo, com gente de várias idades. A faixa etária vai dos doze aos 80 anos incluindo poetas, haicaístas que querem se aperfeiçoar ou querem ter uma outra leitura do gênero e ainda gente que apenas gosta de poesia mas nunca produziu. O interessante é que mesmo esses que nunca produziram, acabam produzindo. Nunca houve alguém que saísse da oficina sem ter produzido um haikai. A experiência do fazer todo mundo tem. E há ainda as pessoas que saem dali como especialistas, que passam a ler com conhecimento com causa.
A prática do haikai exige uma disposição específica de espírito, por estar ligado ao zen?
Quando você apresenta o haikai, você apresenta também o zen, e aí é uma questão que eu não diria espiritual, já que o zen é uma atitude de vida. Junto com as noções de poesia, a pessoa vai receber uma outra atitude de vida, uma atitude que é inclusive muito mais prazerosa. Na oficinas que dei, houve casos de pessoas que saíram dizendo: pô, eu achava que vinha para cá aprender a fazer poesia, e além de aprender poesia eu aprendi a ser feliz!
A que você atribui a popularização do haikai no Brasil?
Primeiramente porque essa forma breve, sintética, tem a ver com a nossa necessidade cada vez maior de síntese. Nós não temos mais tempo para nada, então quanto mais síntese melhor. Talvez por isso, a síntese tenha se tornado uma qualidade da escrita em qualquer gênero. Por outro lado, muita gente se utilizou da forma mínima do haikai para expressar outras coisas sem se preocupar com o aprendizado do haikai original. Há pouco, recebi um livro de um poeta da Bahia que inventou a expressão poetrix, que é um poeminha de três versos. Estou começando a disseminar essa expressão, que achei muito boa. O poetrix surgiu no Brasil por causa do haikai.
Mas você não vê uma vulgarização aí?
Em alguns casos sim. Como na quadrinha, ou no soneto, há resultados maravilhosos e outros nem tanto. Todas as formas estão sujeitas a bons e maus poetas.
Agora uma velha e batida questão: afinal de contas, é verdade que se lê cada vez menos poesia no Brasil?
Não sei porque vivem dizendo isso. Não faço parte desses catastrofistas. É claro que todo nosso dia-adia, o corre-corre cotidiano nos empurra para uma direção mais pragmática, mais objetiva do que subjetiva. Mas sempre haverá espaço para a poesia, só que não tanto como alguns poetas gostariam. Eu acho sinceramente que o ser humano não poderia viver de poesia. Não existe isso. A poesia jamais ocupará tanto espaço quanto alguns desejam porque as próprias necessidades diárias de cada um de nós não nos permitem viver tão poeticamente. Mas o ser humano tem necessidade do estético e do lúdico, e essa necessidade está dentro de cada um de nós. Ou seja: não é tanto, nem tão pouco.
Que questões estão afligindo com mais intensidade os poetas contemporâneos brasileiros?
Com as minhas viagens, fico conhecendo poetas em geral, os conhecidos e os desconhecidos. E há de tudo: quem está só preocupado com um lugar ao sol, gente que está procurando uma nova linguagem, gente que está indo na linha da experimentação mesmo com a pesquisa da palavra ou da pesquisa do espaço na página, gente que está usando a poesia como catarse ou como expressão de sua revolta etc. Isso sem falar de muitos poetas que ainda rodam seus versos em mimeógrafo. Aliás, não há cidade no Brasil que não tenha alguém oferecendo seu livrinho num bar. Esse fim de década, de milênio, está tendo a expressão de quase tudo. Há até uma linha acadêmica de recuperação do clássico, do verso lapidado. De qualquer forma, o importante para a poesia é que cada um encontre sua própria voz.
Com mais de uma dezena de livros publicados, como você vê a crítica literária brasileira?
Eu não dou a mínima para a crítica. Eu só respeito um crítico: o tempo. É o tempo que vai dizer quem é bom ou mau poeta. Um autor pode fazer um sucesso estrondoso em vida, porque de repente ele teve um know-how de marketing e a crítica o estimulou naquele momento. Mas depois de um período, sua avaliação vai deixar de ter importância. Na verdade, a crítica em sua maior parte é maria-vai-com-as-outras. Não é séria. Temos casos terríveis no Brasil. O Bruno Tolentino, por exemplo. Ele faz uma poesia acadêmica do começo do século, ficou trinta anos afastado do País, voltou e virou crítico. Como é que eu vou respeitar? Veja o caso de Emily Dickinson: ela foi recusada como poeta. Os críticos caíram de pau em cima de sua obra. E hoje sabemos que ela está entre os maiores poetas de todos os tempos. Se eu fizer uma lista dos dez maiores, com certeza vou incluí-la. A crítica errou e erra, porque é humana. O tempo é que vai definir quem vai ficar ou não.
Como você trabalha com seus parceiros musicais?
Há diversas situações. Já sentamos juntos para criar, assim como aconteceu de eu fazer letras para músicas que eles me apresentaram, e também de os parceiros colocarem músicas em minhas letras. Essa coisa de parceria começa devagarinho e de repente o simples fato de se encontrar passa a acionar o processo criativo. Com a Alzira Espíndola é assim: de repente estamos no meio de uma conversa, a filha indo para a escola, eu contando da minha vida em Curitiba, ela atualizando sua vida em São Paulo, e de repente falamos alguma coisa e uma fala para outra: isso é legal pacas. Prontamente, ela pega o violão e eu puxo o papel. Começamos a criar ali mesmo. Além da Alzira, tenho parcerias com o Itamar Assumpção (o mais frequente), Arnaldo Antuens, Chico Cesár, José Miguel Wisnik, Neuza Pinheiro e mais alguns com os quais assinei apenas uma parceria.
Você acha que já existe uma nova geração de letristas no país tão boa quanto a de Caetano, Chico etc?
A música popular brasileira é riquíssima poeticamente. Temos grandes poetas na MPB. Mas, de novo, acho que é o tempo que vai consagrar ou não a nova safra de letristas. Mesmo assim, vejo algumas figuras se destacando: Luiz Tatit, José Miguel Wisnik, Lenine, Zeca Baleiro, Paulinho Moska, Zélia Duncan, Alzira Espíndola, o próprio Itamar e especialmente o Arnaldo Antunes. O Arnaldo é um gênio. É o poeta mais completo que o Brasil produziu nos últimos tempos. Ele é bom de poesia visual, poesia musicada, poesia em prosa e poesia poesia. Agora veja que dos nomes que citei, nenhum tem menos de 30 anos, alguns têm 50. Mas só estão sendo descobertos agora. É gente que está há 20, 30 anos trabalhando, mas que não estava no eixo Rio-SP ou que tinha uma proposta de ruptura que não era aceita pelo mercado (que só aceita o que é digerível). Então, tem uma coisa nova aí em termos de qualidade, mas que não é tão nova assim no sentido etário.





