"Alice e Martin" é história romântica de casal pouco convencional
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quarta-feira, 22 de setembro de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio 
São Paulo, 23 (AE) - Um casal pouco certinho - Alice e Martin - dá título ao novo longa-metragem de André Téchiné, que estréia nesta sexta-feira em São Paulo. Ela, Juliette Binoche, é uma violinista de vida sexual movimentada, pouco estável, moradora de Paris. Ele, Alexis Loret, vem do interior, mão na frente outra atrás, e encontra um canto no apartamento do meio-irmão Benjamin (Mathieu Amalric). É lá que Martin conhece Alice, pois a moça divide as despesas com Benjamin. Nasce um romance entre eles.
Caso estranho, tanto mais que Martin dá um salto gigantesco e inesperado na vida. Torna-se modelo, ganha dinheiro
passa a ser invejado. Tudo vai quase bem entre os dois, mas há um passado que o atormenta. Ele veio para a capital pouco depois da morte do pai. O casal viaja para Granada, na Espanha, onde Alice revela que está grávida. É o que basta para lançar o rapaz numa crise depressiva aparentemente sem remédio. Crise que não busca apaziguamento, mas expiação.
O espectador vai reparar que a trama é bastante enrolada. O que de fato se passou antes de Martin mudar-se para Paris só é revelado na metade da história. Mesmo assim, nem tudo fica claro. Não por insuficiência do roteiro, diga-se, mas porque Téchiné, como em trabalhos anteriores, procura mexer-se nos meandros das relações familiares. É nessa região de ambiguidade que a história vai mover-se.
Pode-se muito bem inferir que Téchiné, em parceria com seus roteiristas Olivier Assayas e Gilles Turand, constroem uma trama de chave psicanalítica. Dela, vai emergir a condição instável de Martin, filho fora do casamento, fruto de uma aventura de um pai dominador (Pierre Maguelon) com uma cabeleireira (Carmen Maura). Daí o conjunto de ambivalências: com a mãe legítima, com a adotiva, com os irmãos do casamento "oficial". Todo esse conjunto de relacionamentos forma a matriz para sua problemática união com Alice.
Mas, claro, o ponto mais sensível, a ferida, é na relação com o pai. Ainda aqui, Téchiné e equipe colocam-se em sintonia com a psicanálise mais recente. Se nos seus primórdios os estudiosos do inconsciente se preocupavam muito com a mãe, ultimamente centraram sua atenção na figura do pai. Lacan, principalmente, foi o grande teórico da função do pai no destino da personalidade do adulto. Por isso, para sacar a lógica do personagem, você tem de entender porque ele pira quando descobre que sua mulher vai ter um bebê.
Essa é a entrelinha ambiciosa de "Alice e Martin". Do ponto de vista cinematográfico, ele não corresponde inteiramente à expectativa. Principalmente quando se leva em conta a qualidade do Téchiné anterior, "Os Ladrões", este sim um quebra-cabeça familiar intrincado, mas ainda assim mais rigoroso e consistente. Um detalhe: Juliette Binoche, na tela, é sempre um acontecimento. "Alice e Martin". Drama. Direção de André Téchiné. Com Juliette Binoche, Alexis Loret, Carmen Maura. Duração: 123 minutos.


