Alianças artísticas
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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
Geraldo Bessa<br>TV Press 
Fato mais evidente no universo do cinema, a relação profissional entre cineastas e atores já rendeu "dobradinhas" memoráveis, como as de Uma Thurman e Quentin Tarantino ou Fellini e Marcello Mastroianni. Na tevê brasileira, onde a escalação do elenco é dividida entre as preferências do autor e do diretor, "atores-assinatura" também são bem comuns.
Muito além da afinidade artística, a criação de uma "panelinha" profissional, na maioria das vezes, é resultado de uma troca de interesses, em que o intérprete quer prestígio e boas condições para cumprir seu contrato com a emissora. Em troca, autor e diretor agregam um nome de peso e popularidade ao elenco da trama.
No ar em "Doce de Mãe", Fernanda Montenegro é uma atriz que qualquer um gostaria de ter em uma produção. Mas, quando é alguma obra de longa duração que está em jogo, ela mostra-se sempre disponível para atuar sob o texto de Silvio de Abreu, com quem já trabalhou nove vezes. "Silvio já me deu todos os tipos de papéis. Novela é algo cansativo de se fazer, mas fica difícil dizer 'não' quando é um convite dele", admite a atriz.
Silvio de Abreu assume a preferência pelo nome de Fernanda para as mulheres mais fortes de novelas, desde as comédias oitentistas "Cambalacho" e "Sassaricando" até produções mais recentes como "Belíssima" e "Passione". No entanto, o autor também vê muito de sua obra representada na atuação de Claudia Raia, com quem já trabalhou oito vezes. "Claudia sabe usar o tom do meu humor muito bem. Autor gosta de quem sabe valorizar ainda mais o texto. Trabalhar entre conhecidos fica mais fácil. Até para ajustar o que ainda não está no tom certo", explica Silvio.
Na mesma sintonia, só para citar alguns exemplos, estão Benedito Ruy Barbosa e Antônio Fagundes, Gilberto Braga com Gloria Pires, Aguinaldo Silva com José Mayer, Manoel Carlos com Susana Vieira e Regina Duarte, e Carlos Lombardi com Betty Lago.
No ar em um papel central de "Pecado Mortal", a presença de Betty na emissora foi um fator importante para Lombardi trocar a Globo pela Record, no ano passado. "A possibilidade de poder vê-la na minha trama de estreia na emissora me entusiasmou. Assim que assinei o contrato, já a reservei logo", conta Lombardi.
Para os intérpretes, além de bons personagens, certas regalias são oferecidas. Marília Pêra, por exemplo, assume que tem trabalhado apenas em produções assinadas por Miguel Falabella porque sabe que terá um tratamento diferenciado na lida diária de gravações. "Com ele, eu tenho a certeza de que serei protagonista. Isso muda muita coisa. Além disso, já passei dos 70 anos. Ele organiza a gravação de uma forma que fica mais tranquilo para mim", admite a atriz, que, atualmente, trabalha nas gravações da próxima temporada de "Pé na Cova".
A grande complicação de trabalhos frequentes sob o texto do mesmo autor é a possibilidade de se repetir em cena. Para Regina Duarte, que interpretou a midiática personagem Helena em três novelas de Manoel Carlos, a complexidade residia no caráter errante carregado pelo papel, que não se enquadra no posto de mocinha nem de vilã. "Eram histórias diferentes, mas personagens de características muito próximas. Foi um exercício me desligar do que já tinha feito e definir essas diferenças na cabeça do público", explica Regina, que viveu sua última Helena em "Páginas da Vida", de 2006.
Na atual novela do autor, "Em Família", Viviane Pasmanter não esconde a satisfação em voltar a atuar sob o texto de Manoel Carlos, mesmo que seja novamente na pele de uma vilã-maluca, tipo já vivido pela atriz em "Felicidade" e "Por Amor". "Devo ter cara de louca. Acho que é isso que faz com que ele me chame para viver um tipo desse novamente", brinca.


