Seria possível desenvolver um profunda investigação da multiplicidade da personalidade humana a partir de um nariz? Para ser mais exato, a partir de um nariz entupido? Para ser mais exato ainda, a partir de um nariz entupido e levemente torto, discretamente caído para o lado direito?
Para o escritor e dramaturgo italiano Luigi Pirandello a resposta é um irônico sim. Numa de suas obras mais significativas, ‘‘Um, Nenhum e Cem Mil’’, escrito no decorrer de dez anos, entre 1916 e 1926, ele leva essa postura ao pé da letra levando o cômico para passear no planalto da filosofia. O romance acaba de receber sua primeira edição brasileira, lançada pela editora Cosac & Naify dentro da coleção ‘‘Prosa do Mundo’’.
‘‘Um, Nenhum e Cem Mil’’ apresenta a história de um sujeito chamado Vitangelo Moscarda. Um boa vida que nunca precisou suar a camisa para ter uma suntuosa existência. Financiado pelo pai, um rico banqueiro, nunca concluiu nada que iniciou, nem estudo, nem trabalho. Com a morte do pai, teve a graça de viver das ações do banco.
Um belo dia, numa conversa cotidiana e banal, fica sabendo através da esposa que possui um nariz levemente torto, caído um pouco para a direita. O drama é que Moscarda nunca tinha se dado conta disso. Recorrendo ao espelho, vê algo que nunca tinha reparado. A partir da constatação de que nem ao menos conhecia sua anatomia básica, ele entra num profunda crise que beira o abismo da loucura – literalmente ao hospício.
O personagem percebe que as pessoas a sua volta se relacionavam com uma pessoa que não era ele, mas alguém que ele desconhecia, um homem de nariz torto. Com essa constatação chega a conclusão de que o homem que ele imaginava ser ninguém enxerga, simplesmente não existe. Ao mesmo tempo compreende que cada pessoa tem uma imagem de sua pessoa a qual ele não se reconhece – mas ela existe. Seja meia dúzia de imagens, ou cem mil. Nesse ponto resolve que precisa de uma definição de sua personalidade. Para que seja um, ou mesmo nenhum, ou quem sabe, cem mil.
A estrutura do romance está baseada nesse terreno. O narrador, o próprio Moscarda, empreende uma verdadeira maratona interior em busca de sua personalidade una e ao mesmo tempo plural. O resultado é trágico. Logo no início, sua mulher o abandona, pois ele deixa de representar a imagem que ela tinha em relação à sua pessoa. Após a esposa seguem amigos, vizinhos e aqueles que cuidam de seu dinheiro. Ele deixa de ser o que as pessoas estavam acostumados e simplesmente é internado num hospício.
Em ‘‘Um, Nenhum e Cem Mil’’, Pirandello trabalha com um tema recorrente em sua obra, a identidade e a multiplicidade da personalidade dos homens. O volume editado pela Cosac & Naify traz um apêndice com uma entrevista concedida pelo escritor ao então jovem historiador Sérgio Buarque de Holanda em 1927, logo após o livro ter sido publicado na Itália. A entrevista foi feita no Rio de Janeiro, durante uma turnê da companhia de Pirandello. Ele declara: ‘‘Sustento que uma obra de arte não pode ser intencional e limito-me a interpretar a vida como ela me parece e o mais diretamente possível. E não se vive com os olhos abertos, vive-se cegamente. A minha convicção de que a personalidade é múltipla não é uma conclusão – é uma constatação.’’
Mais adiante, falando sobre o conteúdo de seu ‘‘novo’’ livro, deixa claro suas intenções: ‘‘Eu não sou um autor de farsas, mas um autor de tragédias. E a vida não é uma farsa, é uma tragédia. O aspecto trágico da vida está precisamente nessa lei a que o homem é forçado a obedecer, a lei que o obriga a ser um. Cada qual pode ser um, nenhum, cem mil, mas a escolha é uma imperativo necessário. E é essa a escolha que organiza a nossa harmonia individual, o sentimento de nosso equilíbrio moral. É ela que constitui a tragédia e que faz com que meus dramas não sejam simples farsas. Eles representam uma lei de sacrifício: o sacrifício da multidão de vidas que poderíamos viver e que, no entanto, não vivemos.’’
Luigi Pirandello, embora tenha escrito vários volumes de contos e romances, é mais conhecido pela sua dramaturgia. É considerado um reformulador das técnicas do teatro europeu moderno. Suas peças mais conhecidas, entre as mais de 40 comédias que escreveu, estão a trilogia ‘‘Seis Personagens à Procura de Um Autor’’, ‘‘Cada Um a Seu Modo’’, ‘‘Esta Noite Recita-se o Sujeito’’. Nasceu em 1867. Após passar pela Universidade de Roma transferiu-se para a Alemanha, onde concluiu doutorado na Universidade de Bonn. De volta à Itália, passou se dedicar à literatura e à carreira de professor. Chegou a exercer o cargo de professor num colégio feminino em Roma durante 24 anos. Numa etapa polêmica de sua biografia, em 1923, entrou para ao Partido Fascista recebendo auxílio do ditador Benito Mussolini para fundar o Teatro Nacional de Arte de Roma. Foi agraciado com o Nobel de Literatura em 1934 e faleceu dois anos depois.
A comicidade filosófica de ‘‘Um, Nenhum e Cem Mil’’ revela uma certa postura existencialista antes da própria existência do movimento homônimo nascido pelas mãos de Jean Paul Sartre. Também aponta para a tão discutida fragmentação do homem moderno, ou melhor dizendo, pós-moderno. Nesse sentido sua leitura tende à multiplicidade, onde a própria dualidade é um elemento usado e abusado por Pirandello: ‘‘Quando a visão dos outros não nos ajuda a construir em nós mesmos a realidade daquilo que vemos, nosso olhos não sabem mais aquilo que vêem e a nossa consciência se perde, porque isso que consideramos a nossa coisa mais íntima, a consciência, quer apenas dizer ‘os outros em nós’, e não podemos nos sentir sozinhos.’’
O escritor italiano eleva alguns argumentos de origem filosófica ao cômico, e vice-versa, como se fizesse um piquenique tendo como convidados as formigas: ‘‘A idéia de que os outros viam em mim alguém que não era eu tal como eu me conhecia, alguém que só eles podiam conhecer olhando-me de fora, com olhos que não eram os meus e que me davam um aspecto fadado a ser sempre estranho a mim, mesmo estando em mim, mesmo sendo o meu para eles (um ‘meu’ que, portanto, não era para mim!), uma vida na qual, mesmo sendo a minha para eles, eu não podia penetrar, essa idéia não me deu mais descanso.’’
Até mesmo a solidão, o território final de preservação da intimidade do ser humano, é abordada de modo irônico por Pirandello: ‘‘A solidão nunca está com você, ela está sempre sem você e, portanto, ela só é possível na presença de algo estranho, lugar, ou pessoa que seja, que o ignore completamente, e que você desconheça totalmente, de tal modo que a sua vontade e o seu sentimento fiquem suspenso e perdidos numa incerteza angustiosa e, cessando toda afirmação de sua pessoa, cesse também a própria intimidade de sua consciência. A verdadeira solidão está em um lugar que vive por si e que para você não tem voz nem feição, onde o estranho é você.’’
Enfim, a capacidade do ser humano de lambuzar de sabão a própria personalidade é praticamente infinita. Ou seja, ‘‘cada um quer impor aos outros o mundo que tem dentro de si, como se fosse algo externo, de modo que todos o devam ver daquele modo, sendo apenas aquilo que ele vê.’’
Um, Nenhum e Cem Mil – De Luigi Pirandello, Cosac & Naify Edições, tradução de Maurício Santana Dias, apresentação de Alfredo Bosi, apêndice de Sérgio Buarque de Holanda, 234 páginas, capa dura, R$ 27,00.

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