Algo mais que música
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 24 de maio de 2000
Marcos Losnak De Londrina Especial para a Folha2 
O encontro entre a música popular brasileira e a formação erudita de concerto já rendeu inúmeros e belos frutos. Um encontro que não representa grande novidade mas um recurso que se revela esteticamente pleno quando bem realizado.
Esse foi o caso do mais recente evento da série Concertos Matinais. Promovido pela Universidade Estadual de Londrina, o concerto do compositor londrinense Bernardo Pellegrini e o Bando do Cão Sem Dono acompanhados pelo arranjador Vitor Gorni e dez músicos convidados aconteceu no último domingo.
O encontro de duas linguagens deu origem a uma exemplar somatória, com a MPB enriquecendo o erudito e o erudito enriquecendo a MPB. Os arranjos para cordas e sopros de Vitor Gorni deixaram claro o adequado papel de um arranjador: aquele que não interfere de maneira incisiva na composição, mas que trabalha no sentido de completá-la, insuflá-la de riquezas e evidenciá-las.
O encontro entre Pellegrini e Gorni revelou a imagem de casamento perfeito, não a de uma união fria ou conflituosa como geralmente acontece nesse tipo de relação. Um casamento onde os envolvidos caminharam para um mesmo objetivo, a beleza musical com todos os músicos sintonizados no mesmo movimento.
Com um repertório enxuto, em sua grande maioria composições inéditas, a apresentação tornou perceptível que algumas composições se ambientam melhor aos arranjos clássicos do que outras. Entre as que ganham maior volume estão aquelas que possuem uma estrutura melódica mais diversificada, onde a teia da criatividade oferece um fértil território para diversas possibilidades musicais. A sofisticação das composições de Pellegrini encontrou eco na sofisticação dos arranjos de maneira a despertar emoções sempre latentes. A perceptível presença de elementos estruturais das big bands no trabalho de Gorni ampliaram ainda mais o leque de possibilidades musicais e, porque não, de surpresas.
O refinado acabamento do trabalho musical apresentado nesse concerto confere um novo paradigma a Bernardo Pellegrini e ao Bando do Cão Sem Dono. Para quem acompanha o trabalho do grupo, fica evidente que trata-se de um marco, um divisor de águas para o futuro caminho da música do compositor e sua banda. Uma nova diretriz aberta para uma música em sintonia com as maiores riquezas da MPB e a plenitude da música clássica. Nada mais do que o retrato do amadurecimento de um trabalho trilhado no decorrer dos anos.
Vale salientar que a proposta dos Concertos Matinais em apresentar compositores locais ganhou, com o evento de domingo, um maior fôlego. Isso porque não se limitou a produzir um concerto, mas a criação de um concerto único, trabalhando não apenas como divulgador de música, mas como estimulador e germinador de novas perspectivas musicais.


