'Se Deus vivesse na Terra, as pessoas quebrariam suas janelas.'' A frase aparece em destaque no novo CD de Sinnead O'Connor. Mas no caso dela, não é verdade. A talentosa compositora irlandesa traz Deus justamente para dentro de casa.
Depois de quatro anos longe dos estúdios, o álbum duplo Theology mantém as principais características de Sinnead: é um trabalho ousado, criativo e polêmico. A maioria das canções são da própria compositora, que afirma ter sido influenciada por emoções nascidas após os atentados de 11 de setembro às torres gêmeas do World Trade Center. ''Theology é uma tentativa de trazer um pouco de paz a esses tempos de guerra. O mundo inteiro se tornou muito perigoso naquele dia'', afirma. ''Eu simplesmente quis criar algo belo e inspirador.''
É esta exatamente a mensagem da música Something Beautiful, que abre o CD. O estilo de cantar é inconfundível: às vezes ela sussurra e outras, a voz de Sinnead emerge da música como uma força inesperada, que sequer precisa do acompanhamento de instrumentos. Isso é mais evidente neste trabalho porque os dois CDs têm as mesmas músicas: o primeiro, produzido por Steve Cooney e Grahan Bolger, gravado em Dublin, é apenas voz e violão. No segundo, gravado em Londres, as canções reaparecem sob o arranjo de Ron Tom, com uma banda completa, com todo aparato eletrônico, bateria, guitarra, baixo, piano, harpa, violino, metais, vocais e percussão. Entre os artistas convidados está a ''lenda'' do reggae, Robbie Shakespare.
''Durante minhas apresentações, há sempre um momento acústico, muitas vezes considerado o melhor do show. No processo de gravação, eu não consegui abrir mão do desejo de fazer um álbum acústico. Mas, ao mesmo tempo, fiquei encantada com o trabalho de Ron'', explica Sinnead. ''Theology é o resultado dessas duas versões.'' É difícil escolher o que ficou melhor.
Theology é uma viagem bíblica; pessoal, musical, sensível e profundamente inspiradora. Um disco para lembrar que há um Deus de olhos nos feridos, nos miseráveis, nos cativos, nas vítimas. Um disco para celebrar esse Deus. As referências ao Velho Testamento aparecem em toda parte: Dark I am yet Lovely remete diretamente aos Cantares de Salomão; Whomsoever Dwells é quase que uma transcrição do Salmo 91. Ela também canta o livro de Jó (Watcher of Men) e a parábola da vinha (If You Had a Vineyard). Nesta música, o peso da percussão é o peso da pergunta: ''Porque quando eu peço doçura/ela só me traz amargura?''. E também o peso da sentença: ''Tristeza virá para aqueles que chamam o mal de bom, e o bom de mal/ que apresentam a escuridão como luz e luz como escuridão/ que apresentam como doçura somente as coisas que são amargas''.
We People Who Are Darker Than Blue (Curtis Mayfield) é uma das poucas canções não autorais do CD. No entanto, ela reescreveu a letra, assim como fez com as outras duas músicas do disco que não foram assinadas por ela: o reggae Rivers of Babylon, transformado de hit dançante em um lamento pelo povo de Sião e I Dont Know How To Love Him, a música que Maria Madalena canta em Jesus Cristo Superstar.
Mesmo para quem não entende as referências bíblicas, o CD é um sopro de vida. Uma celebração da beleza que ainda resta no mundo e a esperança de que esta beleza sempre poderá ser encontrada: ''Porque Ele ama o que é certo/ e a terra está repleta do seu cuidado'' (33).

SERVIÇO
- Theology
Cantora - Sinnead O'Connor
Distribuição - Rob Digital

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