Incrível a dissociação entre o cuidado com o planeta e as formas constituídas para durar indefinidamente na arte e na arquitetura. Vivemos na cidade, cercados de regras e grades, mas, ao mesmo tempo, sem consciência do nosso papel histórico neste lugar. Ao jogar um papel de bala pela janela do carro, ou dar a descarga depois de fazer as necessidades, nada nos preocupamos sobre o futuro da matéria que descartamos.
Vivemos o paradoxo de pensar o futuro como possibilidade, ao mesmo tempo em que vivemos o presente sem passado, como algo dado à transitoriedade, ao imediatismo inconsequente das ações corriqueiras e banais. Como se os recursos naturais fossem, de fato, naturais e infindáveis. Como se fossemos estrangeiros em nossa própria terra, admitindo o estrangeiro como o outro, como se não nos pertencesse. Exploramos, através do extrativismo, e do uso desordenado do solo, nossa riqueza e nossa diversidade, nos contentando com a informação padronizada que diz como devemos operar sobre o mundo, para pertencer a um certo padrão de ''civilidade''.
Fazer arte, para durar 500 anos, como foi o caso da Gioconda (Mona Lisa), de Leonardo da Vinci, no século 16, é perder o senso histórico da urgência das ações e do significado de armazenamento das informações, hoje em dia. Se os mecanismos de tecnologia operam, cada vez mais, através de simulações, a arte, assim como a arquitetura, precisam repensar seu papel como manipuladoras e transformadoras de matéria e, também, na conservação planetária.
Esse ser sedentário, o operário de sistemas, também está com os dias contados no processo produtivo, porque é sempre substituível por máquinas. Já não depende mais da caça, nem é mais o manipulador de todo o processo de fabricação de materiais, como era o artesão na Idade Média. Agora, simplesmente, contempla o fim dos recursos naturais, das florestas, dos peixes no oceano, dos rios, dos lagos de água pura, enquanto ainda aperta um ou dois parafusos, que ajudarão o fim se tornar cada vez mais real.
Vivemos ainda o sonho do século 17, acreditando em um espaço infinito, que agora poderia ser mensurável, catalogável. Deus passou a ser um cálculo matemático. Enquanto isso, a descoberta do Novo Mundo, a América, abria uma possibilidade jamais pensada de expansão, aos habitantes do Velho Mundo, criando uma relação outra com o imaginário da civilização.
Da embalagem do papel de bala jogada ao chão à criação do clone, sentimos que a tecnologia avança mais rápido do que a consciência das pessoas para processar as transformações. Se o computador é capaz de simular como seria a cidade perfeita do futuro, baseado nas mesmas condições sociais e comportamentais em que vivemos o presente, certamente se baseia em dados falsos, ainda que nos venha vários carregamentos de material de construção de Marte, ou outro lugar qualquer do Cosmo. A verdade é que as fontes de reservas naturais continuam esgotando e a pergunta que se deve fazer, enfim é: por quê e para quem?
O fim do mundo, hoje, é uma realidade não distante (e não só pelas guerras e pela peste). A arte, a arquitetura, filosofia, enfim, todas as disciplinas humanísticas devem repensar seu papel como mantenedoras de uma situação feita para durar, mas que está prestes a ruir. E tentar, em máximo esforço, fazer com que as chamadas ''ciências frias'', ''neutras'', ''insensíveis'' ou ''imparciais'' - que, aparentemente pairam acima do jogo de interesses humanos - se transformem além da razão cartesiana que o século 16 lhes outorgou.
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