ALFABETO VISUAL Trabalho? Sim. Mas com arte
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 27 de maio de 2003
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para Folha 2 
Uma coisa é ter pressa. A outra, ser exato. Uma coisa é aprender dando cabeçadas. A outra, dando risadas. O sacrifício nem sempre é a melhor opção para ganhar o pão. Quando o fácil vira fóssil, o difícil vira mito. Essa história que é preciso sofrer para ter, para ser, parece conto de quem não tem o que fazer.
Um psicanalista em São Paulo dizia sempre que ''as pessoas erram do mesmo jeito, porque sempre se movimentam da mesma maneira''. Propunha ele, em seu trabalho, que as pessoas buscassem movimentos diferentes durante a sessão terapêutica que ele ministrava. Por exemplo, voltar a engatinhar, reaprender a andar, andar de costas, mancar, etc. É engraçado, mas rir (chavão) continua sendo o melhor remédio.
Obviamente a perda, o fracasso, o erro, a dificuldade, o sacrifício, são boas escolas de ensino. Mas se apanhar ensinasse, burro era doutor. Mesma coisa achar que a experiência traz sabedoria. Que a velhice traz a ponderação. Que nada! Se a idade, por si só, trouxesse algo além de rugas, perdas e dores no corpo, tinha muita gente ganhando dinheiro ensinando viver.
É incrível, mas muitos aposentados simplesmente perdem o melhor do tempo de suas vidas porque não sabem aproveitar o tempo livre, depois de anos e anos de trabalho contínuo. Nossa sociedade faz isso com as pessoas: transforma-os em seres sem criatividade, repetitivos, escravizados, dependentes, acomodados e depois, de uma hora para outra lhe outorgam o direito de desfrutar a vida, sem que lhe dêem qualquer preparação para esse grande acontecimento. O cara nunca leu um livro, nunca assistiu um espetáculo qualquer, nunca foi a uma exposição de arte, nunca teve tempo de visitar parentes, de fazer amizades, mal pode fazer passeios, viagens e ainda querem que o coitado desfrute a vida. Sinceramente: o ócio para tais pessoas acaba se tornando um fardo. Tão pesado quanto para outros, a quem o ócio é imposto, como condição de permanecerem como mão-de-obra excedente, ou, marxistamente, ''exército de reserva''.
Sobre essa questão do ócio, aliás, o poeta Mário Quintana tem uma tirada lapidar: ''A preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar não inventaria a roda''. E é sobre a invenção, a criatividade e aquele jeitinho brasileiro de resolver nossos problemas com calma, tranquilidade e simplicidade (deitando e rolando), que o trabalho pode se tornar mais divertido e prazeroso.
Trata-se aqui daquela espécie de jogador de futebol, tipo Romário, bola no pé, grito de gol. Em que as metas são atingidas sem que fique todo mundo cansado e estressado ao final da execução de algum serviço. Nada daquela coisa horrorosa de pessoas se batendo, se comendo e tendo de se aturar fazendo coisas juntas, porque ficam se cobrando quem é que está trabalhando mais do que quem. É o contrário disso que interessa. Na verdade, o problema não é quem trabalha mais do que quem, o problema é: quem faz a obrigação com prazer e quem só as faz reclamando, olhando para os lados. Fiscalizando os de dentro, para ver se estão trabalhando e esperando que os de fora tenham pena. Não sabem se divertir, coitados!
Ser exato, ser preciso, fazer as tarefas de forma justa, em tempo hábil, é distribuir e canalizar a energia da melhor maneira possível para não desperdiçar tempo nem material. E isso é inteligência. Aliás, as escolas deveriam ter uma disciplina só para ensinar as pessoas a pensar, ao invés de ficar enfiando informações dentro das cabeças dos estudantes como se elas fossem vasilhas vazias prontas para ser preenchidas. Cada um tem sua contribuição a dar, cada um deve usar sua própria maneira de resolver os mesmos problemas. E essa riqueza de diferenças é um grande patrimônio a ser aproveitado. É isso que faz o trabalho se transformar em arte. E a arte como prazer de viver.
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