Em um texto sobre o trabalho do artista carioca Ricardo Basbaum, na revista ‘Item5’, Maria Moreira toca em duas questões fundamentais da formação da cultura brasileira, que hegemonicamente é judaico-cristã, mas formada também pela(s) cultura(s) africana(s) e indígena, interligadas por uma ponte que relaciona as culturas através do mimetismo e do sincretismo, em suas formas de preservação de identidades e resistência às opressões operadas de uma cultura sobre outras. Assim, quando o inimigo está demasiado próximo, é preciso se camuflar, como o camaleão, no ambiente no qual se está inserido, confundindo-o. Quando o inimigo impõe seus elementos culturais, principalmente os simbólicos, é preciso saber incorporá-los, resistindo, assim, à interpretação que o opressor faz desses símbolos.
  A esse respeito, a autora do texto ‘‘Repersonalização, enfrentamento e reversibilidade’’ cita Roger Bastide, que coloca que a fusão entre Iemanjá e Nossa Senhora ‘‘não leva à conversão, à eliminação ou à assimilação de um item sobre outro’’. Mas que cada um vê nas imagens seus próprios esquemas de percepção e explicação da realidade, sem que se dê, na verdade, a acomodação do signo em um só contexto. Um jogo de analogias e não de fusão. E que o mimetismo ‘‘é uma estratégia de combate’’: ‘‘o ruído futuro de um segredo explosivo’’.
  E isso significa que, historicamente, desde quando foram trazidos os primeiros escravos negros, que são as estratégias de dissimulação e aparente ausência os modos pelos quais a cultura do país passa a ser equacionada. E, aí sim, estamos falando no Estado Brasileiro e suas formas de manutenção e uso do poder segundo uma negatividade de ação.
  E a negatividade da ação, nesse caso - não supõe uma ação negativa, mas de retirada. E, ao retirar-se, muitas vezes, aquela falta torna algo ainda mais presente do que sua presença, de sua participação. Por exemplo, quando colocamos a culpa no governo por isso ou por aquilo, atestamos ao governo uma situação de poder. Damos valor a ele.
  Tais formas de hibridismo que se colocam podem confundir ao observador incauto, que vê a forma, mas não conhece o conteúdo daquilo que está sendo dito. Até porque pode ser que o que está sendo dito não é da ordem da
palavra, mas do olfato, do gosto, ou da imagem, por exemplo. Ou que a uma coisa corresponda outra, ou a negue.
  Aceitar, simplesmente, a mestiçagem como algo positivo, copiando, sem refletir, os modos de ser do outro é descaracterizar, ou assumir que não se possui cultura própria. Mas isso também é parte de uma cultura, ou de uma imposição cultural, uma vez que a desagregação se revela como fonte do individualismo, do discurso securitário e do messianismo. Ela reforça uma cultura de consumo.
  Já dizia um sábio jornalista que ‘‘não existe criação sem tradição que a nutra, assim como não existe tradição sem criação que o renove’’. No sentido icônico, que nos remete novamente à esfera da criação artística e ao texto inicialmente citado sobre o artista Basbaum, a autora pensa no termo ‘‘lateralidade’’, distinguindo-o da ‘‘antropofagia’’, do ‘‘tropicalismo’’ ou do ‘‘hibridismo’’ que se tornaram uma fórmula fixa para se pensar uma cultura em trânsito.
  Prega, então, no caso dos símbolos, o não apego às suas formas, mas ao deslizar constante de seus significados, com ênfase na ação do sujeito que circula entre os objetos e não entre os objetos nos quais ele circula. Pois em sociedade transculturais como a nossa, as articulações, para serem mantidas, necessitam sempre estar ligadas às suas raízes, mas também, de olho no jogo em que se operam as questões contemporâneas.

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