Aproveitando o título da música de Gil, como título da coluna, falamos com Deus ou falamos de Deus? Podemos tentar as duas maneiras. A primeira seria uma comunhão com o sagrado e o divino. A segunda, uma tentativa de abordagem sobre a criação. Um assunto que muitas vezes confunde uma coisa e outra.
Quando Michelangelo pintou a cúpula da Capela Sistina, em Roma, representou Deus e as cenas bíblicas, ao mesmo tempo em que aquela pintura evocava o divino em sua maneira de se manifestar, pelas mãos de um artista. A arte, depois de um longo período em que não se podia pintar imagens como aconteceu com a igreja ortodoxa no oriente, por exemplo transformou-se no principal meio de divulgação religiosa para as massas que não sabiam ler. E não só as imagens foram se sofisticando, as linguagens também. Não era mais só falar de Deus, ou para Deus, mas também com Deus.
Imagina-se Giotto, Fra Angélico, ou qualquer desses monges/pintores católicos em estado de graça, tirando de sua palheta de cores, cenas bíblicas, que faziam (e ainda fazem) o espectador dobrar-se, de joelhos, por admiração e reverência ao que se apresenta diante de seus olhos. O artista se torna o criador, como o Criador teria criado sua criatura, chamando-a a recriar as cenas da gênese. Então, a própria criatura se torna criadora.
Hélio Oiticica, para quem o significado cosmológico, na arte, era de fundamental importância, escreve em seu diário (6 de setembro de 1960), transformado no livro Aspiro ao Grande Labirinto: ''...Quero que a matéria de que é feita minha obra permaneça tal como é; o que a transforma em expressão é nada mais que um sopro: sopro interior, de plenitude cósmica''.
Mircea Eliade, no livro Mito e Realidade (1963), narra a história da origem de vários mitos, em várias culturas, onde a criação artística é considerada sagrada, tanto quanto qualquer atividade em que o homem se dedique com atenção ao seu ofício. E nos apresenta a figura do xamã, que invoca a origem do mundo, toda vez que faz um tratamento de cura para alguém doente.
E para falar de Deus desse ponto de vista, é preciso romper com o dogmatismo do cultivo de qualquer fanatismo monoteísta ou formalismo litúrgico. Se Deus está em todos os lugares do micro ao macrocosmo, em uma infinitésima partícula quântica e no seio de uma galáxia desconhecida ele estará também em toda a religião capaz de ver na transcendência do corpo, o espírito das manifestações materiais mais evidentes ao nosso redor. Ou seja: matéria e energia como estados de uma mesma unidade. E isso não é um privilégio de nenhuma crença, em particular, mas pertence à percepção de um mundo carregado de divindades. Para a cultura indígena, uma árvore (um pássaro, um trovão, um rio, ...) é um Deus. O espírito que emana dela é ela própria. A árvore é, ao mesmo tempo em que representa todas as árvores da floresta.
Falar sobre isso para nossa ''civilização'', em que o desperdício é visto com olhar complacente e, muitas vezes, é até estimulado pelo consumismo, pode parecer algo inócuo. Mas estamos o tempo todo reelaborando o mundo e a idéia de mundo, dando-lhe novos significados, inventando novos conceitos simbólicos. Tudo se criando e recriando, ao mesmo tempo.
Em vez de olhar a luz, diretamente, correndo o risco de cegar-se, ser luz. Um trabalho de arte como aquele em que o artista enche uma sala de tanta luz, que, se alguém se atrever abrir a porta deste ambiente, correrá o risco de cegar-se. Ou então, desligar-se, como um nefelibata que anda nas nuvens, chamando Deus para uma conversa sobre criação.
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