ALFABETO VISUAL História, realidade e abstração
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 31 de agosto de 2004
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para Folha2 
Mudanças de atitude - Hoje em dia é comum ver pinturas, desenhos e esculturas que não mais representam algo do mundo visível, coisas que podem ser reconhecidas como um vaso de flores, uma paisagem, um rosto, um objeto, uma figura. Temos no artista russo Wassily Kandinsky, a referência mais citada quando o assunto é ''abstração'' da arte. Sua primeira aquarela abstrata data de 1910. Ou seja, a criação de uma pintura não mais interessada em representar o mundo real, mas de ser, ela também, parte da realidade.
Por um lado, Kandinsky e os outros que vieram junto com ele estavam interessados na criação de uma arte onde formas, cores e linhas pudessem ser expressas como códigos independentes de outra interpretação que não fosse a harmonia dentro da composição pictórica. Por outro, na superação do ilusionismo da perspectiva no espaço bidimensional da tela, que faz parecer real a profundidade construída de luzes e sombras, dando a idéia de volume.
Em verdade, essa revolução toda (estávamos para entrar na época das grandes e revoluções sociais e da 1 guerra mundial) serviu para abrir caminhos para toda espécie de experimentações e posições do artista na sociedade, que continua até hoje. Cada vez mais sua atividade foi se tornando crítica e reflexiva e, ao mesmo tempo, liberta dos padrões estabelecidos como ''verdade absoluta'' sobre sua criação poética. Afinal, atuar como artista em uma sociedade onde o mercantilismo atingiu tal grau de sofisticação como na nossa, exigia e ainda exige mudanças não só no campo da realização das poéticas, como também, mudança do ponto de vista comportamental.
Apanhado histórico - O fato é que tudo isso ocorreu com uma velocidade fantástica. Do nascimento de uma pintura como ''Les demoiselles d'Avignon'', de Picasso, realizada em 1907 - em que os planos são recortados - à radicalidade da pintura neoplasticista de Piet Mondrian - pintando apenas quadrados coloridos com cores primárias, principalmente depois de 1920 - há a singeleza de um Klee, a experimentação dos futuristas russos e a violência criativa dos futuristas italianos, no qual muitas das teorias dadaístas se apoiaram. Obviamente um apanhado geral como esse é pleno de injustiças, mas o que se quer traçar aqui faz parte de algumas propostas que ficaram como ''forma'' de se usar a arte a partir das conquistas estéticas por eles desenvolvidas. Muitas vezes, contrárias à própria idéia que se tem de arte. Outras, contra o próprio público, escandalizado diante de tanta provocação.
Tais conquistas estéticas vêm sendo aplicadas há pelo menos 100 anos, como fizeram o próprio Kandisnky e Klee. Ao levar elementos de uma forma de fazer arte a outra, ou outras - como no caso do uso de elementos da pintura levados para a composição músical ou para a poesia, e vice-versa - uma nova fase se descortinou na arte. Vide Apolinaire, Marinetti e os poemas sonoristas dos dadaístas, como os de Man Ray, que, aliás, tinha como atividade principal a fotografia. Ao transformar a pintura em uma composição, idéias da música são passadas para a pintura, como ruído, contraponto, massa sonora, harmonia, melodia, etc. Ao usar tipos diferentes para os textos, o poema pode se tornar um trabalho gráfico onde a própria letra pode deixar de ser um ícone, para se transformar em um símbolo. Caso do ideograma chinês, por exemplo, onde a qualidade do grafismo revela estados emocionais e qualidades estéticas próprias daquilo que está sendo revelado na escrita. O que vem sendo usado e abusado depois dos concretistas. E assim é, até a dissolução total das fronteiras que ligam um discurso poético a outro. Mas que pode ser pensado ainda além das fronteiras da linguagem da própria arte.
Rumo à abstração total - O discurso contemporâneo não vê problema algum em se apropriar da linguagem da ciência, mais precisamente da biologia e da tecnologia computacional para falar de suas próprias questões. Palavras como hibidrização, genética, recombinações, etc. são de uso corrente da arte contemporânea. A ôpintura" de hoje pode ser pensada como interfaces de computador combinadas à interconexões neuroniais; reprogramação das funções biológicas em seres humanos; recombinações genéticas usando DNAs de espécies diferentes; e mais um tanto de maravilhas e monstruosidades que ninguém tem a menor idéia até onde se possa ir. Talvez em direção a abstração da própria linguagem, onde nada signifique nada além do que está expresso. Talvez em direção a abstração da figuração da própria realidade. Onde homem, máquina, reino animal, vegetal e mineral, simplesmente desapareçam enquanto sujeitos e objetos da história e em seu lugar tudo se torne, quem sabe, uma só entidade abstrata.
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