ALFABETO VISUAL Fome de cultura
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 29 de janeiro de 2003
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para a Folha 2 
A campanha Fome Zero, proposta pelo governo Lula parece ter ganhado a simpatia dos mais diversos setores no mundo todo. Seduzindo platéias tão díspares como as de Porto Alegre, no Fórum Social Mundial, quanto em Davos, no Fórum Econômico, nosso presidente faz lembrar que o momento é o de resolver questões urgentes humanitárias no planeta - onde grande parte da população vive na pior das misérias - e não o de inventar guerras, aprofundando mais a crise mundial.
Vivemos por muitos anos a ditadura econômica e damos quase como natural que é pela falta de dinheiro a dificuldade de se resolver o problema das pessoas. Como se a miséria fosse apenas material e não espiritual. Este tipo de raciocínio, aliás, tem servido ao longo dos anos, como justificativa dos discursos macroeconômicos que colocam os recursos de países como o Brasil, dependentes do capital financeiro internacional. Em resumo, capital produtivo a serviço do capital especulativo.
É certo que em nosso país, fora os bolsões de miséria, o problema é muito mais o da subnutrição e da falta de infra-estrutura básica para atender as populações carentes do que propriamente a falta absoluta de alimentos para a sobrevivência. E ao problema da fome se juntam outras necessidades básicas a suprir: como a fome de cultura, saúde, educação, moradia e transporte. Você tem fome de quê?
Somos da terra da fartura. Tudo o que aqui se planta, cresce e floresce, já tinha enxergado Caminha, que não percebeu também que nem era preciso plantar, bastava colher no pé, comer e viver na abundância. Como o fizeram por anos os indígenas - em harmonia com a terra - e depois os exploradores europeus, seguido dos norte-americanos, movidos à ganância do lucro fácil da exploração dos recursos naturais e da mão-de-obra barata. Claro, tudo isso com a conivência da elite política e econômica nacional.
Chega-se a perder a fome pensando nisso! Quantas vezes já não foi dito que este país não tem rumo porque lhe faltou a experiência da guerra. Que, se as pessoas passassem fome realmente, como aconteceu com a Europa, valorizariam mais o que tem. Uma loucura! Pois em qualquer lugar em que se planta uma cultura (em ambos os sentidos da palavra), a terra e o clima são férteis o suficiente para retornar em abundância seus frutos. A miséria é impedir o acesso das pessoas aos bens comuns, entre eles, os bens culturais.
O problema todo e que ao invés da economia estar inserida na cultura, a cultura é que passa a ser um apêndice da economia, quase que como um acessório de luxo, descartável. Cultura é a própria razão da existência de uma nação, de um povo. Ela é a sua maior riqueza. Quando Tom Zé diz que o Brasil, com a Bossa-Nova, deixa de exportar matéria-prima para exportar música, fica claro que é preciso investir no potencial criativo e no patrimônio espiritual como forma de garantir nossa sobrevivência da maneira mais digna e elevada o possível.
E Cultura aqui não é só pensar a arte como acessório de políticas assistenciais, para ajudar a resolver um problema de fundo, de desigualdade social. Ou de ostentação de uma elite com acesso à entretenimento, sem juízo crítico. Mas como marca de identidade de um povo que deixa para a história um caminho a seguir. Um povo com cultura é um povo fortalecido em sua alma, que reconhece o seu lugar no mundo, que luta por seus interesses coletivos, por sua hegemonia como nação, que tem algo a dizer ao mundo em respeito às diferenças de cada um. Autônomo e solidário para dividir a fartura dos frutos colhidos com outros povos. Assim, mesmo a economia, que age com tamanha pressão sobre nossa capacidade de sobrevivência, o tempo todo, passa a ser um campo em que a cultura pode (e deve) tentar refletir e modificar até o ponto da abundância.
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