ALFABETO VISUAL É a vida!
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 15 de julho de 2003
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para a Folha 2 
Tudo começou, como muita coisa começa, em arte, como uma brincadeira. Um material que ia (vem) chegando pelo computador, assim como quem não quer nada, sob o título: ''Vendo Frases Feitas''. Bobagens, lugares-comuns. A primeira, de junho, era um simples ''Viva São João''. Quem estava remetendo tal texto era o artista Edson Barrus, o ''cão mulato'', inventor de um conceito de arte para a criação do ''vira-latas transgênico''. Que fez de sua casa, no Rio de Janeiro, o espaço Rés-do-Chão, para experimentação de trabalhos radicais, lúdicos e poéticos. Que transforma seu lugar de moradia em abrigo para outros artistas, transformando a hospedagem em ação de arte, também.
Pois bem, depois de muita frase feita, agora já com outros participantes, recebo uma imagem de uma foto tirada em uma via urbana, com uma faixa, onde se lê: ''É a vida''. E assim, coisas absolutamente clichês, são capazes ainda de nos remeter a significados que transformam nossos pensamentos sobre coisas que pareciam não ter mais nada a dizer. Um novo olhar sobre a mesmice pode mudar nossas percepções. Maktub.
Na sexta e última edição da revista Item (quem quiser adquirir um exemplar pode mandar um e-mail para [email protected]), com o tema Fronteiras com excelentes artigos e acabamento gráfico primoroso o artista plástico Alex Hamburger escreve um texto sobre seu processo de criação, mostrando a gênese em que palavras e imagens se correspondem através da história da arte e de como isso acaba por desaguar em seu trabalho criativo. O que se destaca é a maneira como o autor vai se apropriando de textos, imagens e materiais de uso cotidiano para compor sua poética verbi-sonora-visual. E, principalmente, como, através do uso de objetos prontos, como uma bolsa de camelô, por exemplo, ele transforma o significado de coisas pertencentes ao senso-comum, em arte. Ou, por que não dizer, transforma a arte em senso-comum.
Não é esse um dos postulados mais significativos do ''ready-made'', inventado por Duchamp, no início do século passado? Vindo da experiência pioneira com o grupo dos dadaístas, seu gesto é considerado como o grande marco na ruptura da tradição moderna em arte. Colocando uma roda de bicicletas sobre um banquinho de madeira, Duchamp tira a arte de uma discussão hermética, fechada, de arte pela arte, nos oferecendo novos rumos de pesquisa, que continuam, até hoje, se desdobrando. Uma longa caminhada começa pelo primeiro passo!
O que podemos ressaltar dessa questão que envolve as mais corriqueiras das situações, é de que conceitos tão arraigados quanto a postura do artista como criador original, como gênio inspirado, cai por terra. De que a propriedade intelectual, a arte enquanto objeto único, o trabalho enquanto mercadoria, se transforma, agora, em um jogo, cuja prática, pode recair na mais óbvia das operações. Não só fazendo o cotidiano como matéria da arte, mas a arte como possibilidade no cotidiano. Afinal a vida imita a arte (ou é o contrário?) e vivemos uma época saturada de imagens e frases e coisas que estão ao nosso dispor sem precisar novas matérias e materiais que vão poluir ainda mais o planeta. Deslocar é preciso! As colagens em artes plásticas ou em música utilizam há tempos tais recursos, ao juntarem elementos aparentemente díspares em novas configurações.
Isso, que aparentemente é apenas uma blague, uma ironia da situação cotidiana, um recurso artístico inconsequente, é o que de mais forte pode estar acontecendo em termos de mudança de conceito sobre a função da arte em nossa sociedade, porque, se aquele passante, que vai do trabalho para casa e da casa para o trabalho estiver atento ao lixo jogado nas ruas e aos sinais em que se acostumou atravessar não como algo que é um simples lugar-comum, mas sim algo pleno de potencialidades não só a arte estará contribuindo para que este cidadão perceba o mundo à sua volta, mas com que arte e vida possam se tornar matéria de uma mesma dimensão
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