Se pudermos chamar a arte de ''ciência da liberdade'', como já disse alguém, então a liberdade deve estar de acordo com a possibilidade de todos terem os mesmos direitos e deveres. Nesse caso, a arte estaria envolvida em uma luta política que vai muito além da idéia de partidos e fronteiras nacionais. Sendo preciso tornar bem claro quais as armas disponíveis para essa luta, e a capacidade de poderio deste arsenal bélico em favor da liberdade.
Obviamente quando falamos de direitos e deveres, falamos também de uma questão que é de ordem política e social, exigindo-se, assim, a regulamentação de uma economia de mercado e de estado onde todos tenham acesso aos bens de produção e consumo produzidos dentro, pela e para a sociedade. Ou seja, o acesso aos direitos básicos e universais de dignidade humana.
Embora isso ainda pareça distante, só isso é muito pouco. Pois se algumas nações têm condições de enviar naves espaciais para desvendar o cosmo atrás de espécies de vida, deveria ter essa mesma preocupação aqui na Terra, o que não parece ser o caso. A descoberta do Novo Mundo, há mais de 500 anos, trouxe o quê, além de acumulação de riqueza e exploração dos habitantes do lugar e da natureza? Tecnologia? Para quê? Para quem? Por isso a questão da matéria, dos materiais e o destino da humanidade são de interesse constante de uma ciência que seja mais do que a contabilidade fria de números.
Diz-se, também, que ''o maior capital humano é a criatividade'', mas a criatividade não pode ter como destino final a criação de produtos de consumo sujeitos à venda, ao lucro, à exploração, à usura e à acumulação de capital financeiro. Porque, nesse caso, a ''ciência da liberdade'' estaria sempre condicionada e dependente de uma autoria, de uma marca, de um registro, de uma fonte detentora de direitos e deveres que, em última análise, pertence a um dono, um grupo, uma empresa, um estado que usa do conhecimento comum, em benefício próprio e único.
Dois pontos podem ser colocados aqui: o primeiro trata das liberdades individuais X as práticas coletivas. O segundo é o de que, ao projetar um modelo de sociedade ideal, poderíamos dar as costas a uma realidade que ainda engatinha na consciência de certos direitos que ainda nem foram implementados pelo atual modelo econômico e financeiro.
Mas, bem, aqui se trata de projeções. E em nosso caso, da projeção de uma sociedade voltada à criatividade enquanto capital maior a servir de moeda corrente.
Voltando ao primeiro ponto, é preciso manter as conquistas individuais, mas é preciso, urgentemente, criar formas de inibir o individualismo, o personalismo, a possibilidade de alguém ter e consumir muito além das necessidades humanas, impedindo que outras pessoas, em condições menos favoráveis, possam se beneficiar dos mesmos direitos.
A ciência - filha do determinismo e do racionalismo - não tem sensibilidade para fazer da economia uma disciplina humanística. É fria e só está voltada aos números, às cifras, às estatísticas. Por isso, cabe à cultura, a começar pela arte, assumir seu papel de agente transformador na sociedade, confirmando-se, de fato, como ''ciência da liberdade'' e usando a criatividade como sua mais potente arma.
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