A vaca no pasto
  A primeira vaca que nessas terras aportou não deve ter dado ao pasto tempo de alimentá-la. Ruminou seus sagrados cantos mântricos em hindu, mas acabou virando churrasco em comemoração a algum evento de pioneiros. Palavrão insultuoso quando aplicado com duplo sentido, da vaca até o berro se aproveita, hoje em dia, nem que for para fazer música eletrônica.
  Em relação à vaca, ou melhor, ao bovino, desde a pré-história já se representava sua imagem no fundo das cavernas, preso em armadilhas, correndo em fuga, ou sendo atingido por setas dos nossos antepassados. Não podemos esquecer, também, da importância que esse animal representa na Índia, bem como no Ocidente, na manjedoura com o menino Jesus. Daí até se tornar vaca louca, que perdeu o juízo por comer ração contendo sua própria carne, foi só uma questão de ficar amarela.
  Bovinos sempre foram retratados na arte ocidental, também. Lembremos da época do Romantismo, no século 19, quando havia um movimento de voltar à natureza, de retomar os valores do homem do campo, em privilegiar o contacto com a natureza, uma vez que as forças produtivas iam na direção da industrialização e da valorização da cidade em detrimento ao campo.
Jardim de volts
  No entanto, nem só de vaca vive a arte que tematiza a natureza, ou melhor, a arte rural. Pois a questão agrária, na arte, passa por tanto pela democratização (reforma agrária) dos meios de acesso à informação, quanto das ferramentas utilizadas para sua criação. A manutenção de uma horta, por exemplo, pode ser uma espécie de processo de arte. Mas quando o artista chama essa horta de ‘‘jardim de volts’’, utilizando a energia que vem das plantas, como se elas fossem pilhas, transformando esses sinais em bits, logo o que temos são criações com cores, sinais, em direção a realização de filmes, imagens, textos, etc. Cultivando dados a partir de uma engenhoca que qualquer um pode fazer, cada planta do ‘‘jardim de volts’’ é testada como se fosse uma micro-usina elétrica. Talvez uma saída energética se não mais econômica, ao menos mais poética do que o biodiesel, vendido como tábua de salvação no governo atual.
Land Art
  Muitos foram os trabalhos feitos no campo, como aconteceu na land arte, na década de 70, quando vários artistas realizaram seus trabalhos levando em consideração a paisagem do campo, ou das florestas. Richard Long era um deles. Fazia desenhos com pedras ao longo de uma grande extensão, por exemplo. Ou, mesmo, Ana Mendieta, uma mexicana que deixava o contorno de seu corpo marcado em diferentes lugares, como areia, barro, pedras, etc, como se fosse um ‘‘grafite’’ primitivo ou algo assim, feito diretamente na matéria.
Arte e ecologia
  Pode parecer coisa passadista os artistas pensarem no uso de outros espaços para ocupação de seus trabalhos, como sítios e fazendas, construindo hortas orgânicas, fazendo permacultura e, mesmo, vivendo em ecovilas. Mas atualmente há uma demanda pela questão ecológica que ultrapassa as leis de mercado e o artista já não precisa mais se fixar na cidade para distribuir seu produto, ou suas idéias, que podem circular livremente no mundo da virtualidade.
  Quem se interessar por esse tipo de temática, ou mesmo se quiser se inspirar no campo para realizar trabalhos de arte, saiu um edital para concorrer a uma residência de artistas, para permanecer durante 21 dias, em fevereiro, em uma fazenda no interior de Minas Gerais. O nome do projeto é Interações Florestais/Terra Una. As inscrições vão até o dia 5 de novembro e os interessados podem encontrar na internet maiores informações. A questão lá é misturar ecologia com arte, mas certamente não há de faltar uma vaquinha no meio da paisagem bucólica.

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