ALFABETO VISUAL
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 11 de setembro de 2007
Rubens Pillegi Sá<br> Especial para a Folha2 
Apego
Apegar-se ou desapegar-se seja lá do que for: de uma paixão, da vontade de ter um carro, uma roupa nova, de querer que as coisas e as pessoas sejam como queremos, etc, pode ser um duro exercício para quem na vida pensa que a verdade do caminho deve reagir às suas vontades - por mais sinceras que sejam - e tenta, de um modo ou de outro, encontrar uma saída para a vida, que não é, senão, uma passagem.
Quando queremos muito algo que nos foge, ou nos foge ao controle de tê-las, geralmente não temos a paciência de aceitar e aprender com aquilo que nos frustra a expectativa e abandonamos o que queríamos como se não fosse digno de nós. Quem nunca passou pela experiência de, ao se sentir rejeitado, querer, também, abandonar aquilo que desejava antes? Quem nunca teve uma atitude infantil, desconsiderando aquilo que antes lhe parecia tão importante? O pior é que, de qualquer modo, ainda ficamos apegados aos sentimentos que aquilo nos trouxera e variamos entre a culpa e o arrependimento. Como disse o filósofo: o outro lado da moeda é também a moeda.
Apego ao desapego
Quando uma pessoa se apega demais a outra, quando alguém se apega demais ao dinheiro ou aos bens materiais que possui, ou, quando se apega àquilo que não possui, fazendo da miséria sua desculpa infeliz, há, certamente, um grau de autoritarismo e apego ao poder tão intenso, que a pessoa jamais poderá se satisfazer com o que lhe é disponibilizado à sua volta. Às vezes se perde uma possibilidade de experiência tão ou mais rica do que aquela desejada, porque o medo de perder torna a pessoa vítima e presa pela situação que ela mesma causou.
Mas, se o apego às coisas materiais não leva à felicidade, o desapego a elas também não traz nenhuma vantagem. Particularmente porque liberdade não se ganha, se conquista, como diz o ditado. Abrir mão dos nossos direitos é delegar nossa responsabilidade para que outro diga o que é bom ou mau para nós mesmos.
Uma lição
Mas é preciso tomar cuidado com qualquer julgamento moral dos fatos, até porque, como diz o Zen Budismo, ''a moral é uma excelente escrava, mas um péssimo senhor'' e, em se tratando de ética, o assunto pode se transformar em um terrível debate sobre os efeitos que os problemas trazem, ao invés de nos ocuparmos com as causas e suas consequências.
E, na arte, esse assunto se torna um imperativo estratégico de como se comportar diante da obra a se criar. Ou de como nos colocamos perante um trabalho de arte, seja uma estátua antiga, seja uma vídeo-instalação.
Sim, porque, em primeiro lugar, a arte nunca estará livre da subjetividade, portanto, ela está aberta às mais variadas interpretações. E, depois, uma arte que já vem com bula para seu entendimento, respostas para a sua compreensão, perde totalmente a característica que a torna singular no mundo. E a surpresa e a invenção são partes indissociáveis da criatividade.
Mesmo que, aparentemente, exista um descompasso entre razão e sentimento.
Encarar que desejos não correspondidos fazem parte de uma arte secreta que o mundo nos revelou sob a forma da negação é uma lição que ensina a aceitar que apego e desapego são partes da mesma trama que nos coloca frente a frente ao que a vida tem de mais intenso. E que essa ''negação do desejo'' pode nos levar à compreensão de que a vida é uma passagem, como o fluxo das águas de um rio, cujas margens, ao invés de oprimi-lo, lhe orientam o destino em direção ao mar.


