ALFABETO VISUAL
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 28 de agosto de 2007
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para a Folha2 
Um pioneiro
A história da arte sempre teve seus heróis. Ouvimos falar em Da Vinci, Picasso e logo nosso pensamento começa a se encher de imagens. Uns, inventores, outros, grandes mestres que levaram à frente o aprendizado disponível em sua época, oferecendo as maravilhas que a história da arte nos tem legado.
O pintor francês Édouard Manet (1832-1883) é um desses casos mais clássicos. Um inventor e mestre, ao mesmo tempo, que incorporou as mudanças que a arte da pintura vinha sofrendo desde o Barroco, pelo menos e seus modos de representação, o que modificou até a própria forma de se pensar a imagem.
Ele foi o primeiro a tirar o cavalete para fora do atelier. E a pintar pessoas e cenários reais, passando a traduzir a vida de sua época. E a se preocupar com a luz e a transparência de maneira inovadora. Além de ter sido o grande guru do Impressionismo, sendo admirado pelo grupo desde que viram, no Salon des Réfuses (Salão dos Recusados), de 1863, algumas de suas pinturas.
Contexto histórico
Só para situar o momento histórico em questão, o Salão dos Recusados mostrava obras não aceitas no Salão Oficial de Paris. Desde então, os artistas começaram, paulatinamente, a rejeitar a arte acadêmica dos salões oficiais. E a criar uma história à parte das instituições convencionais.
Havia outra questão relevante para que os artistas rejeitassem os modelos clássicos: com o surgimento da fotografia, o artista deveria procurar uma linguagem que fosse própria à arte. E não mais uma cópia mais ou menos estilizada da realidade, já que a fotografia realizava isso de forma muito mais eficiente.
Daí em diante a crise na pintura obriga os artistas a pensarem seu ofício em termos de massa, materialidade, concretude. Não para comentar o mundo, mas para fazer parte dele. E como a música, pensar em termos de composição, harmonia e equilíbrio.
A questão de Manet, então, é a de dar início a um processo de autonomia da forma, que tenderá, via Cubismo Braque e Picasso com que a construção do espaço pictórico seja pensada em termos de abolição da relação entre a figura e o fundo no plano do quadro. Uma subversão à convencionalidade ilusória da perspectiva e do volume.
Essa construção de espaço, aliás, será radicalizada pela arte abstrata, uma vez que uma mancha de cor é uma mancha de cor, que não quer dizer nada mais além do que ela é: uma mancha de cor.
Além disso, Manet libertou as cores puras como parte integrante da pintura. Fez com que as figuras não mais estivessem dentro de um ambiente, mas fizessem parte dele. E fazendo com que a imagem passasse a ser uma sensação visual e não mais a narração de um evento histórico, como registro de um acontecimento.
As obras de Manet reclamam do espectador um posicionamento. Pois diante dele o que se percebe é uma imagem que não se intimida a responder: ao me olhar, você vê si próprio. E cada um de nós está em lugar diferente, a cada momento. Para Manet, nem o pintor e nem o espectador estão no espaço fixo determinado pela pintura clássica. Daí sua atualidade, sua profundidade e o poder de sua influência até hoje.


