ALFABETO VISUAL
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 21 de agosto de 2007
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para a Folha2 
Dando continuidade à coluna da semana passada, gostaria de concluir a entrevista feita com Bill Lundberg - um pioneiro na arte da vídeoinstalação, ou do filme-escultura, segundo ele próprio - que trabalha desde meados dos anos 60 com projeções de imagens sobre diferentes superfícies, em filmes de 8 e 16 mm, mas que vem mudando de mídia, à medida que usa a tecnologia digital. Bill também é professor e chefe do Departamento de Arte e Tecnologia da Universidade do Texas, em Austin, onde atua na cadeira de transmídia. Portanto, para ele, não é só uma questão de mudança de suporte, mas de adaptação de seu trabalho ao meio eletrônico. Minhas questões, então, passam a ser sobre, em que medida, tal mudança de meio modifica o discurso de arte, principalmente no caso de um artista como ele, que usa a subjetividade e a psicologia como tema para suas obras.
Que diferença você vê entre trabalhar com filme ou vídeo?
Bill Lundberg O vídeo era uma coisa muito crua naquele momento. Agora é a mesma coisa, mas, antes, o vídeo era algo ligado à fala de um tempo presente. E o filme remetia a um sentimento de passado, de nostalgia. O filme apontava para uma outra possibilidade estética. E eu não queria usar o vídeo porque eu precisava de uma claridade visual de representação. E eu comecei a projetar imagens, como a de ''Swimmer'' (''Nadador'', de 1975, em que uma pessoa projetada mergulha em uma piscina real), que eram coisas que eu nunca tinha visto nada como aquilo antes.
E o que você faz hoje pode ser chamado do quê? Videoarte? Videoinstalação? Cinema? Filme?
Bill - Algumas pessoas quando escrevem sobre meu trabalho dizem que se trata de algo híbrido entre escultura, instalação, vídeo e performance.
Qual a diferença entre trabalhar com projeções de imagens, hoje, e de quando você começou?
Bill - A maneira de experimentar hoje é diferente. Por causa dessa coisa do digital que permite fazer coisas que antes não eram possíveis. É muito mais fácil fazer o trabalho, o que não quer dizer que é mais fácil pensar o trabalho. Eu preciso dizer uma coisa. Eu nunca gostei de vídeo em um monitor de televisão. Eu sempre gostei da coisa da projeção. O vídeo, para mim, tem que ser uma continuação do que eu gostava de quando eu lidava com filme, dessa mágica da projeção. De sair dessa coisa industrial e projetada para uma tela quadrada. Foi só recentemente que o vídeo adquiriu a qualidade que me permitiu fazer essas projeções que eu fazia com filmes.
O que você leva em consideração na hora de compor seus trabalhos?
Bill - Eu sempre gostei de uma estética visual forte. Você quer fazer as duas coisas. Quer fazer uma obra que tenha o conceito forte, que fique na mente da pessoa por muito tempo. E você quer ter uma coisa bonita ao mesmo tempo. Eu começo meu trabalho a partir de um plano muito emocional e pessoal, mas eu não quero que o trabalho se transubstancie em algo apenas meu, ao redor do umbigo. Eu espero que as pessoas se reconheçam no meu trabalho.
Fazer uma questão pessoal se transformar em uma expressão pública...
Bill - A transformação de sentimentos pessoais em trabalho público significa que o trabalho resultante acaba modificando a proposta inicial que se tinha em mente. Por exemplo, meu pai morreu e isso me inspirou a fazer um trabalho que eu convidei vários senhores idosos a lavarem as mãos. Mas quando eu acabei de realizar esse trabalho eu me dei conta que ele tinha sido feito exatamente durante a guerra do Iraque. Na verdade era um trabalho sobre ter ou não ter sentimento de culpa. Lavar as mãos de uma culpa.
Você disse que começa um trabalho com algo que te incomoda....
Bill - Sentimentos que ainda não estão resolvidos. Se você prestar atenção aos seus sentimentos você pode criar com eles. É uma maneira de crescimento.


