ALFABETO VISUAL
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 31 de julho de 2007
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para a Folha2 
A entrevista abaixo - inédita - foi realizada em junho de 2006 durante a passagem em Curitiba da artista brasileira Regina Vater e de seu marido americano, também artista, pioneiro em trabalhos com videoinstalação e chefe do Departamento de Arte e Tecnologia da Universidade do Texas, em Austin, Bill Lundenberg.
A presença dos artistas ao Paraná, que deram palestras, mostraram vídeos e montaram um trabalho de Bill, foi possibilitada pela união conjunta de esforços entre a direção da Casa Andrade Muricy, a Secretaria de Cultura do Estado, a disposição do artista Newton Goto em produzir o evento e pelo meu prazeroso trabalho de agenciar o encontro.
O tempo passou e eles voltaram ao Brasil, para uma exposição de Regina no Rio de Janeiro, no Castelinho do Flamengo e para novas palestras de Bill, a partir deste mês de agosto, na Universidade Estadual do Rio de Janeiro.
A exposição em cartaz, de Regina Vater, mostra mais uma faceta de sua inquietude artística, ao trabalhar em diversos meios e linguagens, desta vez com poesia visual. No texto em que assina para o catálogo da mostra, a crítica de arte Cristina Freire nos fala do sentido de experimentação que Regina vem elaborando desde a década de 60, com fotografias, filmes, poesia visual, performances, livros de artista, instalações e, até - como justifica ao longo do texto - jardinagem.
Da exposição, propriamente, além de uma plantação de grama - que é uma instalação onde se lê a palavra ''SIM'' crescendo dentro da sala da galeria do museu - temos ainda outras salas, onde se pode apreciar um pequeno trecho de um poema mítico árabe, do século 12, em que as palavras ficam atrás de copos de água, que funcionam como lente de aumento (''procure pelo invisível e a beleza aparecerá''); cartões-postais virtuais enviados aos amigos, desde 2005, que se transformaram em quadros e; duas montagens com fotos da série ''Cinematic-Still'', em que o texto reforça, sintetiza, explica e compõe com as imagens mostradas.
Como começou sua carreira?
Regina Vater - Eu desenhava desde guria e na minha adolescência tentei vender os quadrinhos que eu estava fazendo em uma loja de decoração e o comprador de lá disse que eu tinha muito talento, mas que precisava de algum guia. E então ele me indicou o Frank Schaffer para estudar com ele. Eu tinha 16 anos nessa época.
Do Frank eu mudei para o Iberê Camargo (pintor e gravurista, 1914 / 1994). Naquela época estavam começando, também, o Rubens Gerchmann e o Antonio Dias. E quando eu vi o trabalho do Antonio Dias eu disse para mim mesma: ''o que eu estou fazendo é água com açúcar'' e, a partir daquele momento eu comecei a quebrar aquela coisa romântica que eu estava fazendo e parti para uma figuração, dentro de uma coisa feminista, que, inclusive, levou-me para a Bienal de Paris, em 67.
Daí em diante começou uma série de salões e prêmios. Foi um início muito ativo. Porque eu era muito ambiciosa em termos intelectuais e não queria fazer concessões ao meu trabalho. A partir daí, arte para mim era uma maneira de conhecer o mundo, em termos mentais.
Gostaria que você falasse um pouco do vídeo ''As Time Goes By'', de 1978, que foi realizado sem som, mas é o mesmo título da famosa música do filme ''Casablanca''. E eu pensei muito em pintura quando o vi.
Regina - Bem, tem a ver com o ''Olho Táctil'', que foi o causador da minha amizade com Lygia Clark, uma obra que eu realizei na Grécia, em 74. É o olho que vira um órgão de tato.
É uma fascinação com a dimensão do tempo. E, também, com o aspecto alquímico. Uma relação com os quatro elementos.
Todos os takes possuem a mesma medida, em termos de centímetros de fita magnética. Quando eu fiz aquilo em filme, eu usei uma régua para medir cada pedaço do que seria projetado posteriormente. E, há também, a questão do paisagismo e da cor.
Qual a influência do Hélio Oiticica em sua obra?
Regina - O tapete estava sendo tirado dos meus pés em várias circunstâncias. Quando eu comecei a série dos ''Nós'', em 1972, eu não conhecia o Hélio ainda. Quando eu mostrei às pessoas trabalhos feitos em saco de supermercado, as pessoas ficavam chocadas, achando que eu estava brincando. Diziam até que eu só seria considerada artista quando usasse tinta a óleo e pincel. Mas quando eu os mostrei para o Oiticica, ele me disse que arte é invenção e que eu devia correr todos os riscos e fazer o que lhe desse na cabeça.
Qual a função da arte para você?
Regina - Arte para mim é vida. Hoje em dia é uma experiência religiosa. É o processo de recriação... Talvez seja até pretensioso dizer isso, mas me sinto participar dessa força criadora do Universo... Sem a arte eu não teria crescido como pessoa como eu cresci. A arte me ajudou a desvendar o mundo: o mundo de dentro e o mundo de fora. E a coisa mais importante dessa história toda é o compartilhamento com o outro. Eu não faço arte para mim, faço arte para a celebração com o outro.


