ALFABETO VISUAL
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 10 de julho de 2007
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para a Folha2 
Riqueza nas idéias
Falando sobre o Tropicolismo movimento semi-artístico criado por serventes de artistas neo-hippies na semana passada, coloquei que ele seria como que uma dissidência do Tropicalismo dos anos 60, ou mais especificamente, uma continuidade pobre das idéias de um movimento que se tornou reconhecido mundialmente. Nosso atual ministro da Cultura, por exemplo, é semente e fruto dessa época!
Continuidade pobre, no caso do Tropicolismo, não é pobreza de idéias, ao contrário, é riqueza de espírito. Uma capacidade de rir da própria desgraça. De fazer sopa de pedras do caminho e (tentar) vendê-la como arte. De usar o ridículo como possibilidade de tomada de consciência em situações onde a hipocrisia domina.
A derrota como afirmação
Sua estratégia está em reafirmar a condição do vencido. Na aceitação do domínio da razão sobre a sensibilidade, deixando-a sangrar eternamente pelo processo civilizatório que produz e alimenta a natureza selvagem dos monstros: os pobres, os miseráveis, os famintos, os desamparados, os párias, os sem-pátria, os sem-lugar, os que ficaram de fora do conforto industrial e tecnológico e crescem desorganizados pelas periferias de um país carcomido pela corrupção. Essa gentalha que não pára de se reproduzir para aumentar o exército de reservas, a nação dos lúmpens, o império dos crédulos, a esperança dos desenganados. Esses que justificam os discursos dos políticos, a repressão policial, a sociedade armada, as guerras preventivas e a proliferação de seitas religiosas, fazendo da boa fé alheia, dinheiro pra suas obras.
São essas (s)obras, aliás, que interessam ao Tropicolismo, um movimento que, na verdade, está para ser inventado e que já passou. Daí a ambigüidade como proposta de linguagem. Sabe que a voz dos que não foram, não são e não serão ouvidos excede a obra acumulada das maiores coleções de arte e é superior, em quantidade, aos livros das maiores bibliotecas. Línguas dizimadas, nações destroçadas, povos chacinados, florestas destruídas, animais extintos, natureza vencida. Olhar para todo esse acúmulo de perdas e fazer piada disso torna tudo mais trágico, ainda. Trágico como são as epopéias. Trágico como é o destino humano, já diziam os gregos.
Tropicolismo terceiromundista
Ser tropicolista não é, exatamente, uma escolha partidária, porque já é algo entranhado no próprio DNA de quem é latino, se sente latino ou é tratado como latino, mesmo não sendo. Ou é como faltar alguma enzima tonificante no corpo e isso começar a produzir diferenças.
É um estado de atenção permanente às gags, às blagues, ao que parecia totalmente sem razão e por causa de um mero detalhe, tudo se revelar tão claramente, como jogo, como trapaça, como tentativa de uma necessidade imposta por uma ilusão. PFL brasileiro e Partido Comunista italiano mudarem o nome para Partido Democrático, em tempos de Globalização Mercantil, pode ser pensado como tal.
Por fim, se o Tropicalismo saudava e criticava, ao mesmo tempo, a sociedade industrial, usando as cores nacionais e a natureza exuberante de nossas matas e praias como princípio e tema de sua arte, o Tropicolismo apenas aponta n com três dedos voltados contra si próprio n uma Amperica Latina em chamas, onde a mistura do branco, do índio e do europeu vão dar no mesmo circuito eletrônico de um computador produzido e montado na China e comprado no Paraguai.


