ALFABETO VISUAL
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 26 de junho de 2007
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para a Folha2 
A questão do que é feio e do que é bonito está além da questão do gosto, propriamente dito, particularmente em arte e, especificamente, em arte contemporânea, onde, muitas vezes, o artista trabalha com a intencionalidade de tornar algo esteticamente feio. Aliás, a palavra gosto vem de sabor e a palavra sabor é uma derivação latina de sapore, que tem a mesma origem da palavra sapere, sabedoria. Portanto, gosto teria mais a ver com sabedoria, do que com o simples paladar individual. Uma criança não sente o sabor de certos ingredientes como um adulto. Um viciado em açúcar não consegue saborear um alimento sem esse aditivo. Um bebedor de vinho não pode perceber as variações que só um sommelier é capaz de apreciar.
Dias atrás, vendo a exposição de pinturas do artista Fred Carvalho, do Rio de Janeiro, logo percebi que estava diante de mais uma demonstração de habilidade técnica que o leigo chama de bonito. Quer dizer, tudo o que está dentro do padrão do gosto comum, como a cor, a representação figurativa de imagens, a gestualidade do pincel escorrendo pela tela e tudo o mais que vem, pelo menos, desde Delacroix e Van Gogh no século retrasado e chegando, pelo menos em Pollock, na primeira metade do século passado.
Perguntei-me sobre o significado daquilo. Eram imagens de mulheres gordas e velhas fazendo caras, bocas e poses sensuais que, em princípio, não queriam dizer nada mais do que aquilo que estampavam. Será que o artista estava a fim de chocar, fazendo uma imagem boa de figuras feias? Fui informado que se tratava de fotos de prostitutas retirada de revistas pornográficas.
Sendo assim, a primeira questão a levantar era sobre o que é a beleza e o fetiche do valor da arte e dos objetos, de forma geral. Para isso, era preciso pressupor um tempo anterior ao tempo da mercadoria nomeada como arte e encontrar um estado que pudesse ser nomeado de poético ou em vias de se tornar poético antes que o acontecimento tivesse um nome. Antes de perder a surpresa e a potência de um evento que se tornou um produto estético. Estético, nesse caso, sendo igual a mensurável, definido, identificado como Arte. Voltado para a assepsia do Museu, da catalogação, da domesticação do conhecimento. Através dessa premissa, as pinturas de Fred Carvalho levam a pensar em uma metáfora da própria história da pintura, decretada morta há bastante tempo. E, mesmo assim, como um fantasma, ela se recoloca como uma questão contemporânea.
No caso, o que importa é a maneira como Fred faz essa representação tornar-se cosa mentale. E o que é que sua pintura quer dizer, além daquilo que se coloca à nossa frente. Ou seja, quais os valores agregados às imagens e à maneira como são construídas essas imagens?
Então temos que olhar tais imagens sempre enquadradas em close, como se viessem de uma câmera aproximando-se de seu assunto e perceber que tais imagens não poderiam ser de modelos-vivos, mas de um pastiche de fotografia qualquer. No caso, vindas do lixo comercial. Depois, o tamanho e peso das telas, que são do comprimento de uma pessoa, largas e pesadas. Tudo isso para fazer um close? E mais, são feitas com tinta óleo.
E nos recordamos, finalmente, que são mulheres gordas, velhas, prostitutas. Ou seja, tudo é muito excessivo, pesado, velho. Como é a própria idéia de pintura, dentro da arte contemporânea! Sendo mulheres e, mulheres velhas procurando seduzir como se fossem jovens, fazem pensar em uma metáfora da velha pintura que não morre e do fato de ser apenas uma mercadoria, um produto, um objeto qualquer. Uma carne no açougue da sedução querendo ser vendida a todo o custo.
E foi através desse artifício utilizado em tais pinturas que a questão do gosto e a relação entre o feio e o bonito, o velho e o novo, certo ou errado, bem ou mal, foram superadas por um jogo que está além (ou aquém, talvez) dessa dicotomia. Ou melhor, nem além e nem aquém, mas entre esse jogo de opostos, que é dado à visão por meios mentais, ou melhor, através de uma inteligência que pode ser entendida como inteligência plástica, anterior ao nome que se dá às coisas visíveis e rotuladas como arte.
As pinturas pesadas e gordas de Fred, dessa forma, realizam o que se pode chamar de uma sublimação, que, por uma incrível ironia, o fazem através da concretude gordurosa, velha e pesada da pintura, que sempre ressurge como um fantasma, colocando-nos diante dessas questões tão humanas.


