‘‘Para um artista não deve haver nome algum, nem mesa para mesa. Casa para casa, véspera de Natal para o dia 24/12, tampouco 24/12 para 24/12. Devíamos desconhecer esses abusos’’.
(Gerhard Richter)


Ainda a pintura
Assunto que se alongou mais do que o esperado, a montanha escolhida para subir mostrou-se mais íngreme do que aparentava, quando avistada ao longe. Passaram-se semanas e ainda procuro um meio de desenvolver e finalizar esse assunto que foi se tornando mais complexo à medida que o tempo foi passando. Muitas vezes pensei que teria de abandonar a caminhada e, quando, finalmente, semana passada, terminei o texto sobre pintura, não consegui a imagem que aguardava para ilustrá-lo e não sabia o que colocar no lugar.
Assim, o assunto o qual eu iria abordar diretamente - as pinturas de Fred Carvalho - acabaram me revelando outras questões tão pertinentes quanto. Ou seja: estou tentando me explicar para defender uma tese sobre o significado (ou não) da pintura. E, principalmente, de uma pintura em que a questão do gosto se torna secundária. Uma pintura pensada friamente. E não como uma forma derramada de sentimentalismo ou habilidade técnica, mas enquanto linguagem plástica e artística.



Um processo de ver
A questão recaiu, então sobre imagens de pintura de segunda mão - ''second-hand-work'' - como nos fala o pintor alemão Gerhard Richter a propósito de seu trabalho, que são imagens copiadas de fotos. Ou seja, depois que algo já foi olhado, tornar a olhar para esse algo, acrescentando, questionando e até modificando o meio pelo qual tal coisa foi registrada (no caso, a fotografia, ou melhor, o processo mecânico de capturar imagens): um cartão-postal, a foto de um parente, o rosto de uma prostituta na revista, a imagem de um bandido, de um acidente, ou outra coisa qualquer, retirada do jornal diário. ''Uso a fotografia como Rembrandt usa o desenho ou Veermer usa a câmera obscura para um quadro'', escreveu ele.
Para Richter, é como se o objetivo de um quadro fosse o de nos tirar a certeza daquilo que vemos, ou que acreditamos ser ''a verdade''. Suas pinturas querem recolocar (re-ligar) o mundo às coisas antes que elas ganhem um nome, um sentido, uma orientação. Sabe da falência de seu esforço, porque o próprio comentário sobre o não-fazer, o não-nomear, já se torna linguagem, portanto, uma forma estética de matar o acontecimento da vida.
Esse o dilema. O paradoxo da criação da imagem, aquilo que decretou a morte da pintura, uma vez que nela não há nenhuma objetividade, nem sendo ela a menos objetiva, como é o caso da pintura abstrata.

Um modo de fazer
Sendo assim, o voltar-se para (contra) a própria máquina que ''fabrica'' a imagem faz levantar as hipóteses sobre o que é a beleza e o fetiche do valor da arte e dos objetos, de forma geral. É pressupor um tempo anterior ao tempo da mercadoria. É adivinhar um estado que possa ser nomeado de poético, ainda que isso seja impossível.
As pinturas que Fred Carvalho realiza também ''lutam'' com essas questões. Seu trabalho usa a fotografia como modelo. Mas, por se tratarem de mulheres gordas, velhas e prostitutas, retiradas de revistas eróticas, fazem pensar em uma metáfora da própria pintura que não morre e ainda insiste em posar como se fosse uma garota sedutora.
E mais, pelo fato de ser mulher, o que envolve a questão da carne e do objeto mulher no mercado do desejo, do fetiche da mercadoria. É a revelação de uma impossibilidade que faz das imagens de artistas como Richter, Danilo Villa, Fred Carvalho e outros, tornarem-se luminosas. Algo que depende da luz para ser iluminado e, ao mesmo tempo, é capaz, também, de iluminar.

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