O princípio que rege a idéia de comunicação é o da transmissão de um dado, ou de informação que circula, de um ponto a outro, sem sofrer modificações em sua estrutura interna. Sou informado a respeito de algo e se o entendimento do fato se verifica, então a comunicação foi completada. Por exemplo: para um analfabeto, esse texto não passa de um amontoado de riscos. Para um leitor comum, ele comunica. Eu posso transmitir uma informação, mas ela só vai se transformar em comunicação se houver um interlocutor do outro lado.
De todo modo, a capacidade do interlocutor manipular a informação transmitida vai depender tanto da cultura na qual ele está inserido, quanto de seu repertório para entender e decifrar tais signos. Entre a objetividade de um texto técnico e a subjetividade de um poema, porém, podem acontecer certas sutilezas que transformam o texto técnico em poema, tanto quanto o poema em texto técnico. O que vai da interpretação de cada um sobre o mesmo fenômeno: no caso, a escrita.
Foi logo no início da modernidade que a questão que envolve a relação entre autor - obra - leitor (espectador) passou a ser desenvolvida. Tomar o ponto de vista do outro para se pensar com quem o texto fala é o mesmo que imaginar o que o outro lê (ouve, vê) no texto escrito. De certa forma, quem cria o texto é o leitor, que dá vida e corpo ao trabalho mostrado.
Assim, pouco a pouco, o público/ leitor/ espectador deixa de ser passivo à obra se arte e passa, pouco a pouco, a ser um participante da mesma. Obras interativas tornaram-se cada vez mais comuns. E hoje, definitivamente, mesmo diante de uma obra que antes era para ser vista como pura contemplação, nós não deixamos de jogar e interagir com ela, mesmo que continuemos a olhá-la sem poder modificá-la em sua estrutura material. O artista propõe, o público interage. Até o ponto em que a obra passa a ser outra coisa, modificada pelo ''uso''.
Ainda assim, o que se modifica é a obra naquilo que lhe é devido. A relação entre emissor e receptor, que podem trocar e inverter papéis entre si, é sempre intermediada pela ''obra''. De ''você decide'' na TV aos penetráveis de Oiticica. Dos gracejos do palhaço de rua, imitando os transeuntes, aos jogos interativos, no computador. Quanto menos repertório se usar para decodificar os signos em ação, mais a interação se torna possível.
Mas chega um ponto em que a comunicação não é a da mera informação que precisa ser decodificada, sob um ponto de vista imediato, como se fosse uma bula. Ela pode carregar duplos sentidos. Quando eu digo ''eu como você'', o interlocutor pode entender com um ou dois sentidos a mesma palavra. E ela pode ter duplas, ou triplas interpretações.
E há outra dimensão, ainda. Que é nomear o outro por aquilo que ele entende que o outro está falando. A palavra ''assassino'', por exemplo, vem do árabe e quer dizer, entre outras acepções, que deriva de haxixe, porque certa tribo do Irã usava a droga antes de lutar contra os guerreiros cristãos, nas cruzadas. Mas, também, quer dizer ''estrangeiro'', uma vez que os ocidentais pegavam a palavra pelo qual eram nomeados pelos árabes e davam a eles o nome que ouviam, aos brados, pelos seus adversários. O assassino (estrangeiro) sendo o outro.
Na realidade brasileira, esse paradoxo, entre eu e outro, então, chega ao absurdo. Vemos a nós mesmos como exóticos, porque temos o olhar europeu/ocidental/cristão entronizado dentro de nossa cultura. Massacramos nossa identidade indígena e não podemos sobreviver com a identidade do outro, o ''civilizado''. Admiramos a beleza da paisagem, mas exigimos lucrar com ela. Colocar placas de ''propriedade privada'' nas imagens. Às vezes, até assassinando a nós mesmos, como algo exótico que não compreendemos o significado. Como informação interdita. Como comunicação interrompida. Como cartão-postal, ou como... como palavras que procuram passagem e entendimento.

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