Alternativo a quê?

Assunto das duas últimas semanas aqui no Alfabeto Visual, o termo ''alternativo'' acabou se alternando entre um estilo, ou atitudes que estariam à parte e em oposição às instituições, academias e ao modo de vida padronizado da sociedade de consumo, até outro, pensado em termos de independência - e não mais oposição - à essa sociedade. Em meio a uma coisa e outra, questionou-se se alternativo era, mesmo, alternativo. E em relação a quê, algo, alguém, ou alguma atividade poderia ser considerada alternativa alguma coisa.
Tal tema ainda pode ser mais aprofundado, uma vez que alternativo impõe mais uma questão, que é a diferenciação de uma coisa por outra. A velha relação conflituosa entre saber o que sou eu e o que é o outro. Por exemplo, seria a cultura indígena uma alternativa à cultura cristã em terras brasileiras, ou seria a cultura cristã uma alternativa que se impôs nessas terras (antes) pagãs? Dito de outro modo: não seria o outro eu mesmo no caso brasileiro (exótico e autóctone ao mesmo tempo)?



Olhando a si mesmo

Questões como essas podem parecer bastante complexas - e são - mas estão na raiz da nossa própria identidade. Só em pensar que, pela primeira vez, depois de mais de 500 anos de domínio europeu - como espelho e reflexo - a América Latina começa a caminhar na direção de uma busca de integração (mercosul, alba, nacionalismos, levantes indígenas, luta pela terra, etc.) já é um indício de que o eurocentrismo não consegue conter nossa singularidade. E que há uma alternativa que vem sendo construída, nos últimos anos. Olhávamos saudosista do que não tínhamos, do que não éramos, sempre além-mar. E, de repente, notamos que fazemos parte de um continente com outros povos, outras línguas, cujas questões de identidade e identificação são as mesmas.



Além dos rótulos

Por fim, gostaria de propor mais uma torção na tal palavra em pauta, até para esgotar (?) de vez o assunto. Refiro-me à idéia de que alternativo (alternativas) não se opõe ao que é oficial, no sentido de que todos queremos, de um modo ou de outro, desenvolver nossas propostas e projetos de trabalho. E que isso deve ser levado em consideração na relação dos interesses de grupos, qualidade e intenção de propostas, mais do que o rótulo que algo pode vir a ter.
Quando Hélio Oiticica propôs ''seja marginal, seja herói'', em 1966, aquilo, naquele momento, fazia parte de um contexto que envolvia a questão da ditadura e da repressão militar. Havia contrastes nítidos entre uma coisa e outra na cultura nacional. E nem tanto na diferença e exclusão social, como se tem hoje. Ser marginal tinha algo de romântico, tanto quanto ser herói tinha de trágico. O marginal de ontem agora é ''candidato a malandro federal'' e o herói de antigamente virou neoliberal, também.
Em todo caso, o que importa, no caso da arte (e da vida, de forma expandida) é que ela não perca a potência ao se desdobrar em situações limites e experimentais, para continuar com seu poder de fazer (e se fazer) vibrar. Isso sim, alternativa contra o amortecimento em que o lugar-comum quer condenar a todos, como se tudo não passasse de mercadoria e produto enlatado e importado, pronto para o consumo.

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