''Viva/ Viva/ Viva. / Viva a sociedade Alternativa!''

Raul Seixas



Semana passada comecei falando da cena alternativa contemporânea nos
Estados Unidos, em que os artistas dos anos 60 e começo dos anos 70
desenvolveram linguagens fundindo diferentes formas de arte em um
mesmo trabalho. E que, normalmente, usavam seus próprios corpos como
meio ou instrumento das realizações que faziam, que ficaram conhecidas
com o nome de performance.

Entre a formação da cena alternativa contemporânea e a realização de
performances, porém, muitas questões podem ser colocadas, já que a
semântica que envolve os termos engloba uma série de significações.
Significações muitas vezes paradoxais e, mesmo, contraditórias, entre
palavras próximas e, até, na mesma palavra.
Por exemplo: a palavra alternativa pode ser bem aplicada àquele
momento dos anos 60/70 de que falamos. Momentos em que a contracultura
comportava a rebeldia dos jovens que queriam não só mudar as
estruturas do poder, mas derrubá-lo de vez. Quem não se lembra do
''maio de 68'', em Paris, França, e as frases de ordem pichadas nos
muros, como ''é proibido proibir'', ou ''a imaginação no poder''?
Outros exemplos? O movimento hippie, os Black Panthers, o LSD, o
nascimento da New Age, o rock'n roll e uma longa lista que vai chegar
ao Brasil, em plena ditadura militar, com o surgimento do Cinema Novo,
da encenação da peça ''O Rei da Vela'', no teatro Oficina e a Tropicália - parangolés e ''é proibido proibir'' (também).

Mas, voltando à questão inicial: é possível pensar o alternativo como
algo separado da oficialidade? Sem pagamento de impostos? Longe da
contaminação urbana? Ou seja, toda aquela ''contracultura'' não foi, de
certa forma, absorvida? Não se tornou objeto de consumo? Mesmo as
atitudes mais radicais, que antes chocavam, parece que hoje ocupam um
lugar no seio da família, prontas para irem ao divã do psicanalista.
Então, o que se coloca é: alternativo a quê? Melhor seria substituir a
palavra alternativa por independente. Mas isso é complicado, também,
pois a pergunta seria a mesma: independente do quê? De quem? De
patrocinadores? Do estado? Da igreja? Da mídia?
Mais profundamente poderíamos nos perguntar: Não foi (e não é) a arte
sempre um gesto de independência?
Começando pelo pré-renascimento em que as convenções da arte foram
alteradas e chegando, pelo menos, até o início do modernismo, a arte
sempre procurou manter sua linha de independência para poder existir e
se colocar como parte da cultura (ou contra-cultura).
Assim, foi no ''Salon des Refusés'', de 1863 - que serviu como
alternativa ao Salão Oficial de Paris, realizado sob intensos
protestos - que essa questão começou a se tornar mais evidente. Pois
com a criação dessa mostra, não só as convenções artísticas sofreram
uma mudança radical, em termos formais. Mas pelo próprio fato de que,
ao criarem um ''Salão de Recusados'' - por determinação de Napoleão III,
diga-se - a própria história de se pensar a imagem no Ocidente e a
maneira do artista se colocar no mundo também se transformou. Mas daí
até as performances dos anos 60/70 já é uma outra e longa história,
que passa pelas ruas e cafés de Paris, nos anos 20 e chega até a nós,
preocupados em (re)definir certos termos que, antes, pareciam tão
claros à luz dos fatos, como as palavras alternativo e independente.

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