ALFABETO VISUAL
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 03 de abril de 2007
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para a Folha2 
O underground
Cena alternativa foi como ficaram conhecidas, nos anos 60, as apresentações de grupos que juntavam artistas de várias áreas - como música, dança, teatro e artes visuais - para realizarem o que veio a se chamar de ''performance''. Nessas apresentações, o próprio corpo do artista passava a ser, também, um instrumento, um meio, ou, mesmo parte da obra ou do processo artístico que se queria mostrar, abolindo distinções sobre onde terminava uma linguagem e começa outra. Ou sobre quem deveria fazer o que, no processo de trabalho.
Tais performances - ou ''happenings'' como eram chamados à época - procuravam manter distanciamentos da carga dramática do teatro, normalmente mostrando o contexto da realidade em que os artistas estavam inseridos. Talvez, mais do que artístico, esse movimento estava interessado em quebrar barreiras comportamentais, sociais e políticas, tendo o direito à liberdade de expressão e de experimentação como meta ética e estética.
Grupos como o Velvet Underground, do cantor e compositor Lou Reed, nasceram nesse momento, assim como o Judson Dance Group e outros, que emprestaram os porões de uma igreja no Soho, em Nova York, para fazer surgir, a partir dali, o movimento ''underground''. O que aconteceu, enfim, no mundo das artes, foi que o circuito off renovou a linguagem artística e transformou o cenário artístico oficial, desde então.
Relações com a cultura de massas
Até hoje o termo alternativo abriga a noção de criação de obras experimentais. Porque foi nesse contexto que as pessoas puderam errar - exigindo, muitas vezes, mais do que paciência da platéia - mas, também, a partir daí nasceram criações vibrantes e potentes, longe da estagnação formal da arte que se fazia na Broadway, por exemplo.
A diferença desse ''cenário alternativo'' com o circuito oficial é que o primeiro não se prende a restrições tecnológicas e não se furta às inovações de linguagem, enquanto o segundo depende de uma estrutura e de um cálculo de risco que não afugente o público de seus espetáculos comerciais. Enquanto um pode abusar das possibilidades de experimentação e de improvisação, o outro precisa manter um padrão onde o gosto e a crítica nem sempre caminham lado a lado.
De todo modo, hoje em dia, essas diferenças tendem a se aplainarem. E, enquanto a própria cultura oficial se deixa permear - ao menos na aparência - pelas experimentações, a outra, a experimental, busca seu lugar ao sol, dentro da cultura de massas. O não-espetacular torna-se espetacular na mesma medida em que o que era alternativo busca uma visibilidade maior para se mostrar. Vide, por exemplo, o que foi o movimento hippie, ou o movimento punk e no que eles se transformaram, já há alguns anos. Comprar calça rasgada e com aparência de velha, em butique, se tornou fashion.
Articulando possibilidades
Mas a questão aqui é outra. Trata-se de pensar uma produção capaz de se colocar em circulação, articulando suas próprias regras. Independente e não presa ao ''mainstream''. Trata-se, portanto, da manutenção do ''exercício experimental da liberdade'' - como falou o crítico Mário Pedrosa - em que os atores dessa ''cena contemporânea'' encontrem espaços de atuação. Espaços estes nem sempre fixos - sejam de regras ou de lugares - mas permeáveis à produção de singularidades e subjetividades capazes de produzir potências e vibrações. E onde a realidade possa ser abertamente mostrada e percebida.
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