O xamã e a transcendência
  O artista alemão (1921-1986) Joseph Beuys era considerado uma espécie de xamã por causa de suas atitudes. É dele o Conceito Ampliado de Arte, que via a sociedade como que sofrendo um trauma psíquico, social, político e ecológico, e que a arte poderia oferecer a cura plena e a redenção destes traumas.
  O xamã é uma figura tribal capaz de entrar em contato com a transcendência. De criar uma ponte entre dois mundos distintos. Talvez seja impróprio pensar um outro mundo além do qual estamos. Mas é possível unir a esse mundo valores de permanência e não só de efemeridade e consumo de mercadorias. E transcender daqui para aqui mesmo, simplesmente alterando nossos estados mentais com o uso da consciência. Ou seja, ao mudar nossa visão de mundo, nossa percepção e sentimentos também se transformam, se ampliam.
  Se, no entanto, para Beuys, o uso da criatividade e da imaginação era a chave para essa transcendência, por outro lado, o mau uso dessas capacidades piora ainda mais o estado das coisas.

Criando e inventando mais problemas
  O sociólogo e diretor de cinema francês Guy Debord, autor do livro ‘‘A Sociedade de Espetáculo’’, previu que os próprios criadores de problemas ambientais iriam vender, como solução, megaprojetos de combate à poluição. Nesse momento em que o caos ambiental parece irreversível diante das catástrofes que o planeta Terra está passando – resultante do aquecimento global – empresas e empresários que faturavam com o desperdício industrial e o desmatamento desenfreado, agora inventam projetos mirabolantes como esconder o CO2 debaixo da Terra, bombardear nuvens com substâncias químicas, ou tapar parte do sol com guarda-chuvas gigantescos, construídos no espaço. Ou seja, em vez de apostarem em soluções simples como frear o consumo, preferem ‘‘criar e inventar’’ paliativos de redução de danos, que só aumentarão, em verdade, os problemas globais.

Uso das palavras
  Palavras a que acostumamos valorizar positivamente nem sempre devem ser interpretadas com o mesmo sentido. Democracia e Progresso, por exemplo, podem esconder a defesa do abismo entre ricos e pobres em uma sociedade onde as oportunidades pertencem àqueles que já possuem acesso a elas. A professora e pesquisadora Vera Lins, em um ensaio sobre o trabalho da artista Leila Danziger – feitos com folhas de jornal – coloca que ‘‘progresso e destruição caminham juntos. O estado de exceção, que ‘atingiu hoje seu máximo desdobramento planetário’ é o resultado de um crescimento ilimitado da atividade industrial’’.

União da emoção e da razão
  Já no romantismo alemão os filósofos e poetas pregavam que as decisões da vida não poderiam ficar à mercê do racionalismo econômico. Que o caminho estético seria a solução em que pensamento e sensibilidade, emoção e razão deveriam andar juntas para a constituição de uma perfeita liberdade política. Onde a criatividade e inventividade estariam comprometidas com a manutenção da vida. Caminho esse trilhado por Beuys, o artista Xamã, que entendia a natureza como parte do humano e não a ser domesticada e transformada em mercadoria, depois descartada e jogada no lixo.
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