Mostra Coletiva
A exposição coletiva de quatro artistas convidados, em cartaz no MAC/PR, em Curitiba, até 31 de janeiro, é uma excelente oportunidade de pensar o quão paradoxal podem ser as definições sobre a arte, que não se deixa prender a rótulos e afirmações definitivas.
  Diferente da ciência, por não se pretender à exatidão, mas à subjetividade. E diferente, também, da filosofia – por se questionar e questionar o mundo através dos materiais que usa e que transforma – a arte modifica, acima de tudo, nossa própria maneira forma de ver as coisas deste mundo.
  Embora sem nenhum compromisso de relação entre os trabalhos apresentados, é possível enxergar em comum neles – além da proximidade de gerações e de produzirem em Curitiba – uma visão intimista dos artistas, que nos desorienta entre aquilo que se revela e que se esconde, ao mesmo tempo. Entre o que aparenta ser, mas não é. Embora esteja ali presente, diante de nossos olhos, ouvidos, narinas. Propõem um jogo de aproximações e distanciamentos. De convite ao toque e recusa em serem manipuladas – vide as faixas amarelas de sinalização coladas ao chão. Sim, a arte contemporânea abriga paradoxos e contradições verbais, visuais, sonoras, etc. e é com esse olhar que as obras de Fábio Noronha, Carina Weidle, Gabriele Gomes e Lívia Piantavini podem ser vistas (apreciadas, degustadas).
  Agrupadas por linguagens, os objetos e instalações de Weidle e de Noronha ocupam salas do andar superior do antigo prédio público (1928), transformado em Museu de Arte. E as pinturas de Gomes e Piantavini, o salão principal e outra sala, contígua, do andar térreo.

‘Deu Errado’
  A produção que Fábio Noronha apresenta – além do impacto visual – envolve o espectador em certa aura de mistério, propondo um estranhamento, à primeira vista. Ela pede desvelamento, mas se recusa a se entregar, jamais se oferecendo totalmente à compreensão. Parece nos dizer que o que está diante de nós é arte e que não se exija dela nenhuma explicação, mas, ao mesmo tempo, ela não exige de nós nenhum sentimento comovido. Apenas uma indagação após outra indagação, nos remetendo a outras, sucessivamente.
  Se nomear as coisas é tirar-lhes o mistério de não as sabermos, então Noronha busca o inverso disso, já que um título remete a um subtítulo, que remete a uma armadilha verbal, que nos coloca em frente a algo qualquer, que pode ser um ruído, uma falsa parede com um buraco se abrindo para o exterior, ou outra parede, simplesmente fatiada, onde o pó caído ao chão faz parte de um jogo de dar e retirar a lógica do espectador. Ao assumir a frase ‘‘Deu Errado’’ sobre pedestais de apoio a esculturas, Noronha assume o certo pelo seu avesso, abandonando o molde de uma cabeça humana em um balde de alumínio, no canto de uma sala.

Objetos Inconformados
  Carina Weidle, por sua vez, propõe operações plásticas (artísticas, leia-se!) conceituais, onde o tirar, o colocar e o sobrepor conferem a seus objetos um desconforto diante de sua posição no espaço, que parece incomodá-los. Tais objetos aparentam viver em um estado intermediário da matéria, inconformados ao seu destino, congelados antes de se diluírem, antes de se racharem completamente, antes de se perderem nas abstrações de algo que pode ser e que não é. Mesmo as peças polidas e bem acabadas nos indagam com um certo modo de ser de Esfinge, a nos desafiar: ‘‘decifra-me ou te devoro!’’.

Cor e perversão
  Com um mesmo procedimento – que é a colocação excessiva de tinta colorida sobre uma superfície – entrelaçado entre um ‘‘expressionismo irônico’’ e um ‘‘pop desencantado’’, cada pintura de Gabriele Gomes parece querer provocar o espectador na sua ‘‘falsa inocência’’. Elas excitam nossa vontade de tocar, de apertar, de espremer, de lamber as cores, mas há algo de perverso nisso: são podem ser olhadas. Entre o desejo e a realidade, nossos olhos passeiam por diferentes texturas formadas pelo acúmulo de tinta. Às vezes fios, às vezes manchas, às vezes deixando boa parte da tela sem pintar, dando espaço ao branco. Branco que é a soma de todas as cores...

Adivinhando o mundo
  E, por fim, as delicadas, sensuais e sutis pinturas (ou seriam desenhos coloridos?) de Lívia Piantavini, cuja leveza na junção de elementos díspares, como linha e cor, forma e conteúdo, nos levam a lugares onde a visão ainda está por se formar. Onde a nomeação das coisas ainda não se deu. Onde a poesia está presente e podemos brincar de adivinhar o mundo.

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