Estar e pertencer
  Diz-se que uma pessoa está na cidade, mas até que ponto a cidade está na pessoa? Algum carioca, paulistano ou paranaense decerto se torna outro estando fora de sua terra? E quando essa pessoa volta, ele e o lugar são ainda os mesmos? E, mesmo modificados, pertencerão um ao outro?
  Estar é diferente de pertencer a um lugar. O mapa da objetividade se confunde com os afetos. E para dizer algo sobre a cidade, é preciso, primeiro, definir a partir de que ponto de vista se quer mostrá-la, seja lá por qual tipo de impressão: de um cartão-postal até um filme. De um texto relatando fatos esparsos ou, mesmo, de um livro etalhando lugares, coisas e pessoas.

Estar na cidade
  Qualquer lugar poderia servir de análise, mas Brasília me parece ser mais do que um lugar. Não há como pensar Brasília sem ensar outras cidades. Ao menos para mim, que não sou de Brasília. Estou em Brasília. Passei por aqui. Mas é a partir desse ponto de vista que posso falar dessa cidade. Rio de Janeiro, São Paulo ou Curitiba não me fazem pensar Brasília. Mas Brasília me faz pensar outras cidades.
  A utopia, a racionalização dos espaços, a monumentalidade, o planejamento, a oficialidade... Tudo isso faz saltar uma idéia de modelo arquitetônico guiando visões tão paradoxais quanto contraditórias, vistas há quase 50 anos de sua construção, para se tornar Capital Federal.
  É difícil traçar uma crítica à Brasília sem levar em consideração que, naquela época, o desenvolvimentismo, o progresso e a industrialização eram sinônimos que deviam impulsionar e acordar o ‘‘gigante adormecido’’. Mas, hoje em dia, é impossivel pensar a construção de um lugar sem levar em consideração o meio ambiente e os problemas advindos da exploração dos recursos naturais. A construção de Brasília está calcada no concreto e no vidro, na utilização do petróleo asfáltico, no uso do carro como meio de transporte. Lá não se anda a pé. E também não se previu as cidades satélites, a miséria de seu entorno e, por fim, o uso que a ditadura militar iria fazer do ‘‘espaço democrático’’, tornando-o fácil de ser vigiado.

Pertencer ao lugar
  De fato, os prédio públicos da capital são verdadeiros ‘‘poemas de concreto’’, mas o formalismo chega a um ponto que desconfiamos dessa pureza. Na exposição em cartaz no recém-inaugurado Museu da República – uma obra de Niemeyer que abriga atualmente uma exposição de fotos de Kadu Niemeyer sobre as obras de Niemeyer – há alguns textos onde a teoria humanista do arquiteto não condiz com sua prática criativa. Em um desses textos o arquiteto no diz que ‘‘raramente a rquitetura aparece nesses momentos de reflexão’’, separando as críticas que ele faz ao capitalismo e, nominalmente, ao residente dos EUA, G. Bush, de sua concepção plástica, propriamente dita. Para ele, trata-se de fazer boa ou má arquitetura, de acordo com os avanços técnicos disponíveis.
  Obviamente uma cidade planejada tende a ser muito mais fluída do que uma cidade abandonada ao caos da especulação mobiliária. A racionalização dos espaços deveria prevalecer sobre os interesses do mercado. E essa é uma referência para se pensar as cidades – e a ocupação dos spaços – nesses tempos em que a palavra evolução já não significa a mesma coisa de 50 anos atrás. E Brasília, marco histórico da arquitetura mundial, só pode ser pensada sobre um futuro que não veio, dentro de um presente que se abre às comparações com outros lugares. Lugares que estão em mim, aos quais eu pertenço, como pertenço, também, a Brasília, com seu concreto e seus afetos.

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