ALFABETO VISUAL
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 20 de dezembro de 2006
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para a Folha2 
Históricos contemporâneos
Se, em seu conjunto, a 27ªBienal de Arte de São Paulo criou lacunas que tornaram o tema da mostra apenas um compartimento para separar arquivos que aparentemente dizem respeito ao como viver junto proposto, por outro lado, a própria impossibilidade dessa catalogação é o que tornou interessante a visitação deste ano. As particularidades foram maiores do que a soma do conjunto exposto, como um todo.
Mencionando somente artistas do terceiro andar do Pavilhão projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer para abrigar as Bienais, no Parque Ibirapuera, três deles, que já são parte da história da arte, mostraram a importância do evento. São eles: Marcel Broodthaers (1924-1926), Gordon Matta-Clark (1943-1978) e Ana Mendieta (1948-1985).
Broodthaers é considerado um artista pós-midiático, segundo a teórica, curadora, professora e crítica de arte Rosalind Krauss. Ou seja, sua obra se propõe a discutir as fronteiras entre arte e não-arte; entre o papel do curador, do autor e do colecionador de arte. Ao criar um Museu para expor em museus, o artista transformou a arte em uma questão de commodities como se ela fosse um produto genérico ao mesmo tempo transformando-se em um preservador de objetos em extinção. Sua coleção de imagens de águias, que é um símbolo dos E.U.A., é o melhor exemplo disso. Tal apropriação de imagens embaralha a noção entre o que é original e o que é falso. Entre o que é ilusão e o que é realidade. Entre o que é único e o que é múltiplo.
Já em Matta-Clark cuja obra foi apresentada em objetos, imagens fotográficas e registros em vídeo o que salta, de imediato, é a capacidade que o artista teve em se envolver com temas sociais e comportamentais dos anos 70, sem perder a atualidade. Além de uma poética contundente, seu engajamento político e humor tornam sua obra uma das mais profícuas da arte contemporânea. Dentre as obras expostas havia o hilário carrinho de respirar ar fresco, um muro de cimento e materiais reciclados, vários registros de obras, de performances e fotos dos buracos gigantes que ele fazia em ruínas de edifícios urbanos.
De Ana Mendieta que tem nos rituais do corpo seu tema de trabalho valeu apreciar várias de suas performances, registradas em vídeo e em fotografia, em que ela cava na terra, ou desenha com flores na água seu próprio contorno em situações em que a paisagem faz parte da relação com suas performances. No vazio do corpo cabem cores, fogo, perda de referências, de memória, etc.
Realidade e inteligência plástica
Além desses históricos contemporâneos, as fotos do sul africano Pieter Hugo e as inteligentes e divertidas charadas low-tech que nos propõem a dupla portuguesa João Gusmão - Pedro Paiva, também foram alguns dos pontos altos da mostra.
No caso do sul africano, as fotos retratam cenas cotidianas de africanos em várias situações. Todas elas parecem deslocadas da realidade, embora sejam reais demais. Grupos de pessoas bizarras que se deixam fotografar; magistrados negros com perucas de tribunal que parecem não lhes pertencer e; artistas itinerantes que usam hienas e macacos babuínos em coleiras em suas aprsentações, no meio de paisagens devastadas pela exploração de diamantes e minérios.
A dupla portuguesa por sua vez, investiga o princípio da formação da imagem através de jogos em que texto e imagem fazem parte de uma narrativa onde a baixa tecnologia está a serviço de idéias que incluem postulados filosóficos e conceitos matemáticos. A partir de um feixe de luz projetado sobre um objeto qualquer, dentro de uma caixa preta, podem surgir as mais surpreendentes metáforas. Há, por exemplo, uma forma oval iluminada, projetada dentro de um ovo de avestruz, através de uma lupa, que sintetiza a natureza plástica de investigação da dupla, que em matéria de inventividade mostraram que a Bienal, mesmo que merecendo críticas, ainda é uma das vitrines de arte mais importantes do mundo, ao lado da Bienal de Veneza e da Documenta de Kassel, na Alemanha.


