ALFABETO VISUAL
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 22 de novembro de 2006
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para Folha2 
Conceituar, nomear, significar, é como tirar a poesia das coisas. Aquela aura de mistério que antes havia no dragao de vidro que corria atrás da casa do poeta se transformou em córrego e sua infância perdeu um mito nas águas que passaram. Para o poeta Mallamè, ''nomear um objeto é suprimir três quartas partes do gozo de um poema''. Mas ''dar nome aos bois'' é, também, uma maneira de tirar da obscuridade certos mecanismos que são usados contra nossa ingenuidade, como forma de dominaçao e poder. Quem conhece truques pode se tornar um mágico!
Conceituar o que é arte, também é, de certa maneira, retirar o ''dragão de vidro'' da nossa imaginaçao, porque cada um tem sua propria idéia sobre esse > assunto e, a ter de pensar, preferia continuar sustentando as mesmas opiniões, sempre. A vantagem é que o conceito torna-se um dispositivo capaz de operar um sistema de signos muito mais complexos do que quando pensávamos que arte fosse para deixar o mundo mais bonito, para decorar a vida, simplesmente.
Não que toda arte caminhe em direçao contrária ao postulado da beleza, ou que mesmo a arte preocupada com outras questões não possa ter beleza, mas é que o próprio julgamento sobre o que é ou deixa de ser belo, é uma questão que não se encerra na arte.
A arte que questiona o atributo de beleza como inerente a obra é reconhecida, pelo menos, desde o começo do modernismo, no século retrasado, quando todos os valores até entao aceitos como ''artísticos'' foram profundamente modificados. Basta pensar nas primeiras pinturas de Picasso, a escrita de James Joyce ou as músicas de Stravinski e o quanto essas obras, tidas como feias inicialmente, se tornaram importante para a cultura.
Nos anos 40 e 50, surgiu nos E.U.A. um movimento artístico que ficou conhecido como expressionismo abstrato. Suas bases, segundo a crítica, nada tinham a ver com a beleza, mas com seus próprios postulados internos, próprios do mundo da pintura, ligados à pureza do meio e na superfície da tela plana como lugar de ação. Nem sequer era levado em consideração a figura ou a representaçao, uma vez que era ambição desse tipo de arte se ater apenas aos valores da forma. E que erradicasse toda a ilusão que um desenho poderia expressar e toda a sensação de volume, também, para não se parecer com escultura. Por isso, abstratas. Melhor, concretas. Essas pinturas não queriam representar o mundo, queriam fazer parte dele.
Muito embora não deixassem de ser belas, muitas delas. E de terem sido responsáveis por um movimento tao influente quanto criticado em todo o mundo. O movimento POP, por exemplo, nascido na Inglaterra mas naturalizado Estadounidense, contestava, entre outras coisas, a solenidade com que aquele formalismo todo queria cercar a arte. E, mesmo que por oposiçao, a maior parte da arte que se seguiu, não quis seguir por um caminho de pureza formal defendida por aquela arte.
E já que estamos falando sobre nomear e definir arte, foi a Arte Conceitual que, ao invés de se contentar em deixar o ''dragão de vidro'' sem nome, preferiu encontrar a definição dessa coisa, expondo no museu de arte o ''corgo'' lá do fundo da casa do poeta, agora transformado em letras, números e citações de dicionários. Assim, a idéia de beleza e sua nomeação passam a fazer parte do campo estético e poético, também. Ao ganhar nome, a ''coisa'' ganha sentido, podendo se tornar arte, portanto, bela, mesmo - paradoxalmente - sendo considerada feia, ou, nao artística, como ocorreram com aquelas obras fundantes do modernismo.
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