Este texto foi escrito (mas não publicado) em janeiro de 2005, durante a exposição que o fotógrafo Walter Ney realizou no Museu de Arte de Londrina, intitulada ''Londrina, 70 anos'', retratando cenas da cidade em preto & branco. Agora, re-visto e ''descansado'' por mais de um ano, ouso colocar algumas pistas que me levaram a admirar seu trabalho.
Conheci o trabalho de Ney, pela primeira vez, quando ele faturou um prêmio de um concurso para fotografar a cidade de Londrina, há uns dois ou três anos atrás. A foto era um reflexo na janela do Museu que hoje é a antiga rodoviária onde se via, além da imagem ''real'', a imagem ''virtual'' refletindo a paisagem ao fundo, a começar pelo museu histórico Carlos Weiss (ou, pelo menos, é essa a memória que eu tenho da tal foto). Para ser sincero, à época, achei a foto, apesar de muito bem realizada, um tanto quanto lugar- comum. Quero dizer, pareceu-me foto de encomenda para agência de propaganda. Tudo muito preparado para dar certo. Pura inveja, confesso!
Depois, vieram as fotos do Museu de Arte, em comemoração aos dez anos do Museu a antiga rodoviária cuja arquitetura, projetada por Vilanova Artigas, adquiriu uma importância ímpar, pelo tempo em que foi concebida, pela criatividade e ousadia de seu traçado.
Se a foto do concurso já havia me incomodado, as fotos do museu, então, causaram-me uma sensação ainda mais enjoativa. Porque, além de abusar dos reflexos da janela, de ângulos procurados para causar efeito, as tais fotos pareciam pintura, de tanto jogo de luz & sombra e reflexos. Todas tinham aquele vermelho e azul de fim de tarde (ou de nascer do dia, ou os dois), levando a imagem a uma carga dramática que era de fazer chorar. Eram tão belas e, ainda assim (e, talvez, por isso mesmo) as achei piegas. Devo dizer que isso de usar um tema para desenvolver uma série de trabalhos sempre me pareceu falta de assunto de artista.
Continuava errando minha leitura sobre os trabalhos de Walter Ney. Até que, no mesmo Museu de Arte que foi tema das tais fotos, Walter Ney apresentou outra exposição, essa, intitulada: ''Londrina 70 anos''.
Novamente fui ver com desconfiança seu trabalho. Afinal, de novo o tema, de novo o cheiro de encomenda, de novo tudo pronto para dar certo. E se era essa minha desconfiança, ao acertar, cai na realidade. Tudo tinha dado certo, mesmo! E, ainda bem, porque se a minha intuição estava certa, meu juízo ainda carecia de clareza. Ou melhor, meu olhar. Ou melhor, meu preconceito. Logo eu, que adoro uma frase do Tom Jobim que diz que ''a encomenda é uma excelente musa''.
Nessas fotos, em PB, Ney havia captado cenas da banalidade cotidiana, da realidade do dia-a-dia que poderiam passar despercebidas para qualquer olhar mundano, que atravessa lugares sem dar conta de seus passos, mas não para o olhar poético de um fotógrafo que aguarda a luz ideal para tirar suas fotos. Que não desperdiça sua atenção, de olho no melhor momento do clique.
Não são, exatamente, conceituais as fotos de Ney. Elas não conduzem o leitor para outra leitura senão àquela da visibilidade aparente. Pensá-las, diria o poeta, ''é estar doente dos olhos''. Não fazem jogo com o espectador. Mas o inusitado dos ângulos que ele consegue enxergar, às vezes um detalhe, a percepção da textura, as tramas ritmadas que saltam aos olhos e os reflexos ah! claro, os reflexos tudo isto faz da fotografia de Walter Ney um saboroso prato para se comer com os olhos.
Toda vez que o encontro na rua, comento que escrevi um texto sobre seu trabalho e nos combinamos de trocar e-mails. Isso faz mais de um ano e só agora, depois que fui ver o resultado de uma oficina de fotografias realizada por ele com crianças de uma escola da Zona Norte, para o FILO, é que consegui retomar este texto para poder mostrá-lo. Assim como uma fotografia, também um texto tem o tempo certo de ser revelado. Eis que surge agora.
Quem quiser ver mais fotos de Walter Ney, deixo o endereço de um site na internet onde se pode ver alguns de seus belos ensaios fotográficos: http://www.photosynt.net/ano2/03pe/capa.htm

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