Para dizer em linguagem bastante simplificada, podemos dizer que as artes plásticas, as artes visuais, lidam com problemas do espaço. Enquanto a música está ligada à dimensão temporal.
Claro que para perceber uma escultura em sua totalidade é preciso girar em torno dela, mas a relação ainda é com o espaço, mais do que com o tempo. E ainda que o pintor Paul Klee relacionasse sua arte com a arte da música. E Hélio Oiticica ter dito: ''o q faço é música''. E, ainda, levando em consideração as mesmas definições, quando se fala de harmonia, ritmo, por exemplo, entre as duas, pode-se pensar tais diferenças entre tempo e espaço.
Mas a imagem em movimento, que depende do tempo e do espaço, ao mesmo tempo, comumente chamada de ''linguagem do cinema'' a sétima arte não é, simplesmente, um híbrido de artes visuais e música, pois possui suas próprias regras de linguagem que não são, também, as de um teatro filmado.
Menos ainda a chamada linguagem de vídeo é a linguagem do cinema, ou do teatro, ou das artes visuais, ou da música. Ela tem características totalmente próprias.
E a chamada videoarte é ainda mais distante de todas essas linguagens, ainda que, aparentemente, esteja bem próxima ou até se utilize de elementos dessas outras linguagens artísticas.
Mas o vem a ser vídeoarte? Desde os anos 60, artistas como Nam June Paik, que se utilizava de aparelhos de tv para criar instalações de arte, já buscavam uma outra relação com a imagem em movimento, como experimentação para as mais variadas formas de expressão. Outros, começaram com câmeras de 8 e 16mm, em uma época em que não havia, ainda, as tais câmeras de vídeo. De lá pra cá esse movimento se intensificou a tal ponto que, com a chegada das tecnologias digitais, esse tipo de trabalho artístico tem se popularizado cada vez mais.
A videoarte que, em alguns casos, pode também ser chamada de vídeo-escultura, ou vídeo-instalação, mistura os princípios da escultura com os da pintura. Porque a luz pode ser projetada sobre qualquer anteparo superfície que estiver à sua frente, independente de sua textura, ou da depressão do objeto onde se projeta a imagem. Melhor, se sobrepondo a qualquer superfície.
Mas a videoarte não se resume à projeção de imagem sobre uma superfície. Essa imagem também pode se relacionar com o espaço onde é projetada. Tony Ousler, um dos pioneiros da videoarte projeta rostos de pessoas que ficam falando, sobre o rosto de bonecos. Bill Viola e Gary Hill, outros pioneiros
dessa arte, também se apropriam do espaço em que a imagem é projetada,
criando ilusões. E ainda se utilizam de sensores que ativam imagens, e mais
tudo o que a tecnologia pode oferecer, para criar seus trabalhos.
Os artistas brasileiros não ficam atrás. O multimídia Lucas Bambozzi tem um trabalho que mostra uma garota em trajes íntimos dentro de seu apartamento. E vemos essa imagem virtual por uma janela real. Quando o espectador se aproxima da janela, um sensor detecta a presença dele e ativa o computador que projeta imagens mostrando a moça que está sendo espiada, cada vez mais brava e constrangida.
Exemplos não faltam. Um dos pioneiros da videoarte, o artista dos EUA (que atualmente está no Brasil para algumas palestras), Bill Lundberg, trabalha, desde 1975, com imagens projetadas sobre o anteparo de objetos como parte intrínseca de sua obra. Por exemplo, um mergulhador dentro de uma piscina: enquanto o mergulhador é virtual a piscina é real. Ou a mão de velhos em uma pia, lavando-se. Em metáforas onde a água que escorre também é o tempo que se esvai. Ou cria discursos íntimos de pessoas que falam para uma cadeira vazia. Ou imagens de pessoas dormindo projetadas sobre travesseiros espalhados pela sala de exibição. E por aí vai, sempre com a mesma estratégia que, a cada trabalho parece tornar seu ''modus operandi'' cada vez mais refinado. Seus trabalhos podem ser vistos a partir do site www.imediara.com, e são projeções de sequências pequenas de sua obra. Reeditada para ser mostrada em vídeo, resumindo uma parte de sua carreira de artista.
Mas não só como videoinstalações que a vídeoarte se manifesta. Seja apenas mostrada na telinhada tv, ou no telão de cinema, ou o que está se tornando mais comum em data-show, muitos vídeos de arte apontam para uma linguagem própria, em termos de artes visuais.
Um vídeo de Edson Barrus, chamado ''Lavo as mãos'' de 2002, se resume a mostrar um tanque de lavar roupas, com a torneira ligada e, durante mais de vinte minutos, as mãos de alguém (do artista) ''lavam'' um sabão. Uma repetição absurda, que não traz nenhuma surpresa além da idéia embutida da repetição de um gesto de ir e vir, parecendo uma masturbação.
Algo ali diz que você pode descrever exatamente o que viu no vídeo, mas você não poderá repetir o momento em que se deparou com aquela imagem.
Há também um vídeo, de 1970, de Paulo Brusky, em que ele sobe uma grande escadaria de um cemitério, lendo o nome de pessoas enterradas lá. E chega ao topo exausto, quase, literalmente, morto. Nada muda. E é isso que faz a diferença entre a linguagem das artes visuais e a linguagem do cinema, ainda que ambas usem imagem e som para construir discursos.
Nesse sentido, a relação do videoarte se distancia da linguagem de cinema,
pois este se apóia na necessidade de uma estrutura dramática, de uma narração que se desenrola como história contada. A videoarte, não. A mesma cena pode se desenrolar ad infinitum, mostrando sempre a mesma coisa.

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