ALFABETO VISUAL
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 16 de maio de 2006
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para a Folha2 
Dizem que a arte é um quebra-cabeças para o público contemporâneo, que a vê quase com indiferença ou desconfiança. É bem verdade que a arte, muitas vezes, não dá a menor bola para o público com a qual deveria dialogar. Isso cria um impasse para ambos: de um lado museus e galerias de arte vazios, de outro, um público alienado e saudosista de uma ''grande'' arte.
Para quem acha que arte ainda é copiar retratos com maestria e perfeição, ou desenhar conforme o modelo, usando mais ou menos cores e formas bem distribuídas, não encontrará na arte, depois do século 19, esse tipo de modelo. Ao declarar-se autônoma, criou-se um sistema de códigos e processos impermeáveis para o leigo, que gostaria de ter uma arte para fluir, mas não para pensar sobre ela. E, sobretudo as artes visuais, que exigem mais do público (nem sempre) do que, talvez, o teatro, cinema ou dança. Neste sentido, a arte tornou-se até mais próxima da filosofia do que da literatura, com quem, talvez, tivesse um parentesco maior.
O fato é que ambos, público e arte, sem dúvida, estão distantes, hoje em dia. As artes visuais atuais não são, nem de longe, um fenômeno de massa. Os curadores de arte, os críticos e até os artistas buscam reverter essa fórmula, ou, esse impasse. Mas o fato é que entre criar para uma sociedade que busca produtos padronizados e de fácil consumo ou satisfazer-se em sua subjetividade, o artista deve avaliar se vale a pena correr os riscos existentes em ambos os lados. O que não quer dizer que, mesmo optando por um desses lados, encontrará seu sucesso comercial ou reconhecimento público.
Nesse cenário, de um lado, um público indignado vai às exposições de arte e não entende nada. E sai xingando arte e artistas. Do outro, artistas que pouco fazem para reduzir tamanha distância em ter sua obra desvendada pelo público. O resultado são insultos de ambos os lados.
Bruce Nauman, artista dos EUA, realizou uma instalação chamada ''Clown torture'', em 1987. Feita com projeções de imagens em tela, em que palhaços riem, ficam indignados e até defecam em uma patente, dizendo textos confusos, mas que, claramente, apontam para esse jogo de antipatias mútuas.
Outro que trabalhou essa idéia de palhaços como uma metáfora das relações entre público e obra foi o suíço Ugo Rondinone. Na 23 Bienal de São Paulo o artista realizou uma instalação com imagens projetadas de palhaços inativos e várias risadas que eram acionadas à medida que o público entrava na sala onde esse trabalho estava sendo exposto.
Instalações como essas têm o mérito de tornar visível o jogo entre público e obra. Mas outras, realmente, são sintomas que, por mais que nos esforcemos, não há como deixar de pensar que o artista está querendo rir de nossas caras.
Na 26 Bienal de São Paulo, em 2004, um dos artistas mostrava um vídeo de uma operação de fimose, apenas para criar um discurso que dizia que ele não era judeu, mas que fazia aquilo para mostrar que não era preconceituoso. Mais ou menos isso. O resultado? Um vídeo com imagens constrangedoras, mostrando médicos cortando a pele do pênis do rapaz.
O que nenhum curador havia previsto é que, saindo da sala de projeção onde estava instalado o trabalho, ao lado da etiqueta identificando autor, nome da obra e ano de execução, tinha uma outra, certamente colada por alguém que se sentiu ofendido com o trabalho, dizendo: ''body art nos olhos dos outros é refresco''. Aludindo ao movimento de arte que usa o corpo do artista como material para realização de obras. Um tipo de gracinha, como resposta ao artista pedante, ou em referência ao seu trabalho sem graça.
Foi o caso de uma espectadora, em outra situação, que jogou um papel no meio de uma exposição de arte e todo mundo rodeava aquilo, olhando com curiosidade, pensando tratar-se de parte da obra. Está certo que estamos em plena era da interatividade, só que, no caso, não era essa a proposta que estava sendo colocada para ser fruída como arte.
E quanto ao pedantismo, então? Nada pior do que ler um texto com mil citações que demonstra um conhecimento enciclopédico do autor, mas nada que se comunique com o leitor, quase como que xingando o leitor de ignorante. Ou mesmo uma obra cujo significado escapa completamente ao sentido de quem vê ou ouve, mas que, por isso mesmo, torna-se ''mudérrna''. Falta de cultura à parte (quando se quer justificar falta de interesse), nada mais gostoso do que uma vingançazinha nessas horas, ao menos deixando um recado mal-educado no livro de visitas da exposição.


