ALFABETO VISUAL
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 30 de novembro de 2005
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para a Folha2 
Escultura de calor Stephen Meyer é um artista alemão que, em 1992 esteve em
São Paulo, a convite do Instituto Goethe, para realizar um trabalho que era
definido por seu autor como uma ''escultura de temperaturas''. Isso mesmo, o
artista marcava vários pontos no mapa de São Paulo e media a temperatura do
lugar, calculando uma média, depois, da temperatura da cidade, dizendo ser
essa sua ''razão escultórica em termos de temperatura'' para determinado
momento. O artista propunha pensar que o calor de um corpo determina um
espaço em volta de si e que esse espaço ocupado não deixa de ser matéria.
Ok? Então era essa a sua poética. Esquentando ou esfriando um lugar é
definindo o contorno dessa massa de ar. À época, uma crítica de arte do
jornal Folha de São Paulo, disse que não seria proporcionado nenhum
''Banquete Visual'' ao público, tentando menosprezar uma obra conceitual que
pretendia pensar a ''imaterialidade'' como uma das possibilidades de se criar
em arte.
Mudança na retina Marcel Duchamp foi o primeiro a desferir golpes fatais
contra a ''arte retiniana'', que é como ele chamava a arte feita para os olhos
e não para o espírito, ou, exercício da mente. Para ele, arte era uma
espécie de jogo e não uma habilidade manual cujo fim é tornar-se objeto
decorativo ou artesanal. A função da arte, no caso, seria a de despertar a
percepção e não mero enfeite de parede. E o artista, que antes era o pintor
de quadros, passou a usar não só os olhos, mas também o cérebro. Não só para
pintar, mas realizando obras que nem sempre se tornam um ''banquete visual''.
O olhar, agora, pode, ou não, ser acionado para o entendimento ou fruição de
uma obra, peça, ou proposta artística. A superfície bidimensional do plano
da tela, que enganava os olhos com perspectivas e volumes que davam a ilusão
de tridimensionalidade, há muito deixou de ser uma exclusividade quando o
assunto é arte. Mas o que permanece são as palavras que ainda definem esses
''herdeiros'' do quadro de cavalete, dos que antes usavam o cinzel ou o
debastador para dar formas ao mármore bruto ou à argila macia, pois ainda
são chamados de ''artistas plásticos'', ou ''artistas visuais'', que é quase uma
contradição diante da ironia do velho Duchamp em relação à pintura.
Mudança na rotina De qualquer forma, comida e arte sempre se combinaram
muito bem. E, mesmo depois de quase cem anos dessa história de ''arte
retiniana'', a comida continua presente no trabalho de artistas, inclusive
como ''Banquete'' e ''Visual'', também, por que não? Em 1980, por exemplo, a
artista carioca Marcia X preparava comida em um salão de artes, denominada
tal ação como ''Cozinhar-te'', que era uma ''proposta de vivência/instalação de
uma cozinha viva''. E a sala do museu de arte se transformava em cozinha, com
todos os apelos sensoriais, que a arte culinária proporciona, além de ser um
espaço comunitário e afetivo.
Em 1997, os artistas Tunga e Barrio, no paço Imperial do Rio de Janeiro,
fizeram juntos uma performance/instalação denominada ''Há sopas'' servindo
jantar para o público que foi vê-los atuar. Em um outro trabalho de Tunga,
anos mais tarde, feito no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, o
artista ofereceu sopa colorida ao público, em meio à instalação que produzia
naquele espaço, no centro da cidade.
E já houve quem trocasse sonhos, aqueles bolinhos recheados com doce, por
sonhos, fossem aqueles que temos enquanto dormimos, fossem as fantasias que
temos acordados.
E, ainda, ao juntar idéia e comida como parte da arte, podemos pensar em um
ciclo constante, onde o que se come é transformado em fezes, que é um
material orgânico, que pode se transformar em adubo ou gás para cozinha, que
pode servir a uma semente que plantamos da fruta que comemos e, assim,
circularmente, tudo se transformar em arte, indefinidamente. E, uma vez que
tomamos consciência dessa ação, passamos a prestar maior atenção ao que
comemos, seja pela boca, seja pelos olhos. A única coisa proibida é ficar
passando fome.


