Uma marca, certamente que tem essa primeira metade do novo século e milênio, para as artes plásticas, ou artes visuais, como se queira, é o fato de que, em poucos anos, uma febre de coletivos de artistas passaram a realizar trabalhos dos mais diferentes meios, agrupando-se em siglas que se espalharam pelo país de maneira bastante dinâmica.
  Esses coletivos de artistas, hoje, estão envolvidos com questões de ações, performances e interferências urbanas que se caracterizam, geralmente, por não dependerem mais de instituições formais para dar vazão a seus espíritos críticos e criativos, além de se conservarem independentes em relação à galerias e museus de arte, podendo ver seus trabalhos realizados, sem se tornar, obrigatoriamente, mercadoria. Fato esse sempre difícil de ser encarado, na arte. Além disso, apostam no provisório e no instantâneo como métodos de ação. Bastando, muitas vezes, o simples registro do fato, seja em foto, ou em vídeo. E, em alguns casos, questionando a própria autoria do objeto artístico.
  Essa disseminação do chamado A(r)tivismo tem sido possível porque, primeiramente, porque o grafite já tinha se lançado às ruas, desde, pelo menos, o final da década de 1970. Ou antes, se pensarmos o grafite em termos de protestos e frases pichadas em muros. Hoje, a web facilita as pesquisas e procuras por comunidades afins, sejam elas reais ou virtuais, uma vez que o controle de acesso é ilimitado. E por um tipo de literatura que começou a ser publicada, no Brasil, como as da coleção Baderna, da editora Conrad e, particularmente, dos livros TAZ e Kaos, de Hakin Bey. Basicamente esse livro propõe a criação de ‘‘zonas temporárias autônomas’’ onde a ordem passa a ser aquela de acordo com cada grupo, sem pretender a tomada do poder, da maneira como é constituído, ou seja, como uma cristalização de valores. Além de que o grupo pode se constituir para uma só ação, por exemplo, e se dissolver.
  Uma característica bastante visível nesses coletivos é que nem sempre são formados só por artistas e nem sempre é arte, ou ação artística o que propõem, o que caracteriza essa tendência ao hibridismo ou interdisciplinaridade, como é mais conhecido esse modo de trabalhar várias áreas do conhecimento humano, com vários setores distintos, ao mesmo tempo.
  Muitas vezes juntando arquitetos, psicólogos, sociólogos e simpatizantes de um modo geral, em torno de uma causa que acreditam, ou que aceitam como correta. E, mesmo, um acentuado caráter ideológico pode fazer parte desses grupos, tendo bandeiras de luta como a defesa da causa ecológica, ou ações políticas de protesto, resistência ou reivindicações, como as acontecidas em Seattle, nos EUA, ou no Fórum Mundial Social, em Porto Alegre. Isso sem retirar ações lúdicas, poéticas e até bem-humoradas, que faz com que o passante, o transeunte, a pessoa tenha um ‘‘choque’’ que a retire momentaneamente do cotidiano e faça com que ela pense sobre outras coisas, além daquelas programadas e funcionais.
  Em Londrina, na Casa de Cultura de UEL, tivemos, há duas semanas, uma mostra de dois dias intensos de duração, de vídeos independentes, mostrando alguns desses coletivos e suas ações, muito embora é preciso deixar claro que um trabalho de intervenção, ação ou performance urbana, não necessite, necessariamente, ser realizado em grupo. A única diferença, como diz um participante do Coletivo Coringa, de São Paulo, no site http://redecoro.zip.net/index.html, é que ‘‘a coletividade tem mais força de realização do que indivíduos trabalhando isoladamente. A coletivização do trabalho artístico é uma estratégia de sobrevivência. Nâo há nada de novo na agregação de artistas. É preciso buscar o que há de pertinente nessa tendência que hoje se fortalece no Brasil.’’
  Os vídeos mostrados pelo artista Goto, de Curitiba, que vem juntando esse material para exibição, vão desde trabalhos de coletivos como ‘‘A revolução não será televisionada’’, que mostra, entre outras coisas, manifestantes saindo com placas, nas ruas de São Paulo e Buenos Aires, escritas com a palavra ‘‘liberte-se’’ em mil e uma situações em que essa placa é exposta –
inclusive sendo queimada em praça pública – até vídeos realizados com câmeras super-8, feitos pelo artista recifense Paulo Brusky, na década de 70. Em um deles, o artista amarra um cordão vermelho em uma ponte e o o que se sucede ali é absolutamente cômico e irônico.
  Bem, para dar uma mostra da quantidade de coletivos que estão organizados, hoje, no Brasil, vão aí alguns nomes de uma extensa lista: Catadores de Histórias, Esqueleto Coletivo, EIA, Temp, A Revolução não será televisionada, Elefante, Comunas Urbanas, Nova Pasta, mm não é confete, Bijari, Cia. Cachorra, Espaço Coringa, Coletivo Tuxxx, Centro de Mídia Independente, Instituto Pólis, Comunas da Terra, Cena dinâmica, Fórum Centro Vivo, Gavin Adans, Ricardo Rosas, Cristiane Arenas, Os Bigodistas, Marcha Mundial das Mulheres, Imagético, Cabeza Marginal, Urucum, Rés-do-chão, Transição Listrada, Poro, Entorno, Empreza, Laranjas, dia-do-nada, etc. Um bom site para pesquisar esses coletivos, ver imagens e o que pensam, pode ser procurado em http://arte.coletivos.zip.net/.
  Nesse sentido, a questão dos coletivos, hoje, mais do que algo a se pensar, é o fato de ser uma realidade bastante atuante no cenário artístico nacional e, portanto, talvez um exemplo em que a chamada classe artística local, ou regional, pudesse estar se espelhando, se é que esses coletivos já não estão se espalhando pelo Estado, de uma maneira geral. Tomara!
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