ALFABETO VISUAL
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 27 de setembro de 2005
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para a Folha2 
Para quem é do meio, a questão do corpo na arte não é nem uma novidade ou modismo passageiro, sendo que bibliografia, registros, imagens e documentação disponíveis a respeito deste tema tornam o assunto quase um lugar-comum sem importância para a discussão atual sobre arte, em um momento em que tudo parece ter sucumbido à discussão da tecnologia, em arte.
Mas mesmo o tema da tecnologia parece não abrigar mais do que a fúria ''novidadesca'' que o meio particularmente o meio eletrônico em seus múltiplos efeitos e possibilidades, apresenta. Seja através do uso de parafernálias para se criar objetos ou processos de arte.
Embora o uso da tecnologia não deva ser enquadrado apenas pela questão instrumental, isto é, como mais uma ferramenta de uso da arte, como se fosse uma nova tinta, por exemplo, por outro lado, é preciso ter claro que nem de longe seja o ''futuro da arte'', como nos tentam fazer ver vários teóricos esses sim, em moda que se apegam nos discursos utópicos do começo do século passado para demonstrar que a tecnologia também proporciona a interatividade, a dissolução da idéia de autoria, o ''work in progress'' (o processo ao invés do objeto), ''a desmaterialização da obra de arte'', etc. o que, aliás, seria um contra-senso, uma vez que a vanguarda artística do começo do século passado, particularmente ao Dadaísmo, questionava não somente a arte, como também a idéia de futuro.
Mas não é o questionamento da tecnologia o que se quer discutir aqui, mas posicionar-se frente a essa questão torna o conteúdo do debate pertinente naquilo que se pretende expor ao longo desse raciocínio, onde corpo e tecnologia são partes indissociáveis de uma mesma estratégia de pensamento. Vamos a um exercício de imaginação para simplificar o raciocínio: um homem pré-histórico com um pedaço de pau à mão para alcançar uma fruta do pé de uma árvore. A ferramenta como extensão do corpo. Um braço expandido. Pois bem, se algo de importante aconteceu com a arte depois do modernismo, é o fato de que ela passou a se permear hibridizar com outras áreas das ciências exatas e humanas, que, a princípio, pareciam manter uma respeitável distância de questões subjetivas.
Hoje em dia tornou-se comum o trabalho de artistas com meios digitais e eletrônicos utilizando a robótica, a genética, a bioquímica, ou intervenções em arquiteturas, utilizando a própria dinâmica social como parte de trabalhos ou processos de arte. Exemplos não faltam: o artista/performer Sterlac, por exemplo, que apregoa ''a obsolescência do corpo'', chegou a adaptar um terceiro braço, comandado por impulsos neurais, em seu corpo.
Eduardo Kac implantou em seu calcanhar um código de barras contendo todas as informações de sua árvore genealógica. Edson Barrus, em versão tupiniquim, faz uma crítica feroz do uso da ciência e da tecnologia, utilizando-se dos mesmos mecanismos de pesquisa científicos, para propor o ''cão mulato'', um vira-latas genuíno. E assim por diante.
No quesito sociologia, também as ações não deixam por menos. Termos como ''terrorismo poético'' ganham até edições de luxo em editoras especializadas e, diga-se, muito bem estruturadas dentro do sistema capitalista em livros com conteúdos claramente ''subversivos''. Estamos todos submersos na ''Sociedade de Espetáculo'', de que nos fala ''Guy Debord'', onde nem mais um espaço escapa mais à atenção do pensamento de arte, seja ele real ou virtual. Ao mesmo tempo sabotadores e colaboradores das mesmas instituições que se procura atacar. O corpo subversivo, assim como o punk ou o hip hop deixaram de ser só atitude, são também mercadorias e produtos.
De qualquer modo, quando arte e corpo não fizeram parte da mesma matéria? Quando é que a tecnologia deixou de ser, ela também, e mesmo em realidade virtual, corpo? Um braço expandido, seja um objeto robótico, ou um cabo de madeira, não se tranformam em parte do corpo também? Existe o corpo natural? Ou o corpo está em permanente construção e transformação? O que é possível perceber, é a relação entre ferramenta e uso.
A arte deixou seu campo especializado de nomenclaturas, conceitos e terminologias para trás ou seja, a arte pela arte e, cada vez mais, se expande em direção a outros meios, outros veículos, perdendo, com isso, muitas vezes, a própria ''aura'' que a envolvia anteriormente. Ou seja, ela não se resume mais ao debate fechado dos salões. A arte, agora está ''DI-SOU-VIDA'' na realidade e em contextos os mais surpreendentes. E o corpo se expande na medida em que se desenvolvem técnicas para torná-lo capaz de alcançar, cada vez mais, o que se queira. O acesso ao corpo, assim como o acesso à arte, pode estar ao nosso alcance (ou pelo menos a idéia dele) não só como mercadoria e produto de consumo, mas como um meio de expansão em que a consciência de quem somos certamente estará sempre se modificando.


