Menos é mais

''América do Sal
América do Sol
América do Sul''
(extraído do poema ''hip, hip, hover'', de Oswald de Andrade)

Condensar Na tradição dos poetas concretistas (movimento literário lançado na década de 1950), menos é mais. Ou seja, contra a falácia caudalosa dos xaroposos poemas sentimentais, a secura e a linguagem sintética dos signos gráficos produzindo uma linguagem verbal, vocal e visual (verbi-voco-visual) de alta voltagem mental. Afinal, para esses poetas que se apropriaram do pensamento de que poesia é coisa, matéria, menos é mais. Ou, como colocado por Ezra Pound, em seu ''abc da literatura'', poesia em alemão é ''dichten'', cuja tradução, em latim seria, ''condensare'', condensar, em português. Ou seja, linguagem sintética, concisa.

Estética oriental Em matéria de saber fazer render mais com menos, os japoneses são mestres. Seja na agricultura, fazendo render o máximo com um mínimo de terra, seja na indústria, diminuindo o tamanho dos aparelhos eletrônicos, aos bonsais, que são árvores minúsculas e até os hai-kais, um tipo de poema de apenas três versos, mas extremamente ricos em significação. Significação que chega ao extremo, no caso da pintura, onde o vazio é sempre um lugar a ser contemplado e não a ser preenchido, como se faltasse algo ao espaço. A estética oriental muito influenciou a arte ocidental, desde os impressionistas, que compravam e admiravam as gravuras japonesas e não há movimento artístico de vanguarda, desde então, que não apele para a síntese, em seus programas e manifestos. Da Bauhaus ao minimalismo.

Mínimo múltiplo comum à arte Se a escola Bauhaus, criada na Alemanha antes do nazismo, tinha por compromisso padronizar e racionalizar a produção, para facilitar o acesso à massa, o minimalismo, nascido nos EUA, por sua vez, tinha por princípio atingir o grau zero de toda a informação, para se chegar a um ''mínimo múltiplo comum'' de toda operação estética, em oposição à ironia da ''pop art'', que era o movimento dominante da época. De todo modo, qualidade e quantidade nem sempre caminham, exatamente, juntas. De Leonardo da Vinci, sabe-se apenas de um pouco mais de uma dezena de quadros. E, ainda assim, a maioria não foi terminada. A Mona Lisa é um deles. E quem há de negar-lhe a genialidade? Mondrian, que é um dos mais influentes artistas da primeira metade do século vinte, quis chegar à essência do quadro, pintando apenas quadrados com as cores básicas (amarelo, azul e vermelho) mais o preto e o branco, criando o movimento chamado Neoplasticismo.
Mas é na frase do pintor russo Malevitch, a época da revolução bolchevique que pintava quadrados brancos sobre telas brancas que vem à tona, hoje, por trás de todo esse discurso estético sobre menos é mais: ''não mais pintar para a burguesia''. Era preciso inventar outros parâmetros também no campo na ação artística. E pensar o espaço delegado apenas ao funcionalismo arquitetônico tornava-se uma função também da pintura e da escultura.

Campo ideológico Decorre, então, desse discurso sobre a experiência do espaço, que a questão não se esgota apenas no campo estético, artístico, mas, também, do trabalho envolvido no fazer, seja ele de que ordem for assentar uma argamassa ou criar um conceito. Porque não se trata apenas em fazer algo, mas de saber o que se está fazendo, ter consciência desse ato. O trabalho não se justifica apenas pela quantidade gasta de energia para ser realizado, nem, hoje em dia, de sua aparência externa, simplesmente. Ele precisa ser sustentado pelo que tem a dizer quando vem a público. Quais são as suas consequências em relação ao meio onde é produzido, por exemplo. Senão, torna-se como o rico fazendeiro justificando seu latifúndio em nome do trabalho árduo de anos e anos de labuta, em um país onde a ganância gera a fome de milhões de pessoas e a concentração de terra é a maior do planeta.

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