ALFABETO VISUAL
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 12 de abril de 2005
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para Folha 2 
Entre a ação e a reflexão
Para se pensar - ''Aprender sem refletir é trabalho perdido. Refletir sem ter aprendido é perigoso''. Recebo essa parábola de uma amiga artista, como palavras de Confúcio, e me questiono, respondendo:
Cara amiga
Vi uma frase do Waldemar Cordeiro, do catálogo de uma exposição, de 1987, chamada IMAGICA PALAVRA, que dizia assim:
''A arte se diferencia do pensamento puro porque é material e das coisas ordinárias porque é pensamento''. Isso é bem bonito. Mas, lendo Deleuze, Merleau-Ponty, apropriando-me da Arte Conceitual e pensando no próprio Beuys, que dizia que pensamento é escultura, fiquei me indagando se é certo dizer que as coisas são o que são por aquilo que elas não são.
Quando digo EU, não estou excluindo tudo à minha volta para afirmar uma unidade? Por outro lado, quando digo mundo, ele não passa a existir só porque sou eu quem o digo?
Ou seja, refletir não é, também, trabalhar? Ou, como enunciado: quando é que o aprender deixa de ser uma reflexão?''
Complicado? Pois é. Melhor resolver o caso pedindo socorro à poesia: ''Pensar é estar doente dos olhos'', ou ''para dançar, pensou, dançou'', como disse a poeta Alice.
O papel da crítica - As arte visuais sempre dependeram, em maior ou menor grau, de uma intermediação escrita, falada, textual, que chegou às raias do absurdo, com a arte moderna. Ou seja, alguém que torne inteligível o trabalho de arte apresentado ao público. Esse alguém, geralmente um crítico, deve (ou deveria) mostrar a importância estética, por exemplo, de um quadro, uma escultura, ou, mais recentemente, uma performance, uma instalação, etc.
Mas, com isso de um fazer, outro pensar, criou-se um dilema, pois se chegou a um ponto de tutela, cujos interesses, nem sempre se dão em nome da arte. E se foram heróicos aqueles tempos em que um Zola, por exemplo, defendia o trabalho de seus conterrâneos que representavam a vanguarda da época, hoje é possível encomendar por e-mail um texto para ilustrar o catálogo de qualquer exposição, sem maiores consequências.
Ação e reflexão - Depois, particularmente, da chamada ''arte conceitual'', o próprio ato de escrever, ou de escrever sobre um trabalho de arte, torna-se, também, trabalho de arte. Afinal, estamos no campo da experimentação estética e, como prega a semiologia, tudo é linguagem. Inclusive a própria reflexão crítica, que passa a ser incluída nesse tipo de pensamento.
Um dos que deram pouco trabalho à crítica, foi o carioca Hélio Oiticica (1937-1980). Embora seus trabalhos sejam comentados, dissecados de toda a forma possível, isso não impediu que, desde o início de sua carreira, ele mesmo procurasse conceituar sua obra, escrevendo sobre suas experimentações no campo das artes visuais, dispensando que outros pensassem a sua inserção dentro da história da arte.
Outro que chama atenção por um tipo especial de ''operação estética'' onde palavra e ação são partes de um mesmo procedimento, é o artista e professor Ricardo Basbaum. Utilizando-se de esquemas diagramáticos, palavras que remetem a conceitos que desaguam em seus trabalhos-armadilhas e dali, de volta a conceitos, Basbaum faz-nos ver que texto e ação podem fazer parte de um mesmo jogo de linguagem, casados e correspondentes.
Não que a crítica se torna dispensável, hoje em dia, mas, quando o trabalho de arte contém sua própria crítica como parte da ''visualidade'', ele condensa uma maior possibilidade de reflexões e interpretações do que algo que simplesmente é mostrado como se não tivesse a dizer nada mais além do que aquilo que se encontra diante de quem olha. E isto, ao mesmo tempo que parece ser o desejo de toda obra (não ter que pensar sobre) é, por outro lado, uma
impossibilidade material imposta por qualquer trabalho, seja de arte ou não.
[email protected]


