ALFABETO VISUAL
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 01 de dezembro de 2004
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para a Folha 
Texto e ação, palavra e imagem
Imagismo Quem gosta de pintura, certamente já viu algum quadro com letras e palavras pintados na composição. Não a assinatura do artista (também), mas algo escrito que tentamos decifrar como parte da obra. Por outro lado, quem é que nunca viu em um texto, por exemplo, no lugar da palavra coração, aquele desenho de um coração parecido com uma bundinha de cabeça para baixo?
Concretismo A relação da palavra com a imagem pode se tornar tão estreita que, muitas vezes, fica complicado classificar o que é literatura e o que é artes plásticas. Que o digam os concretistas! Para eles, a diferença entre texto e imagem, ao invés de ser um empecilho, torna-se um saboroso desafio.
Se fôssemos enumerar, só no Brasil, os artistas que se aventuram por essa seara, poderíamos dizer que tal tendência tornou-se, de fato, uma escola. São letras que se partem, se fundem, se negam ou se afirmam; palavras transformadas em outras; frases que rompem com a lógica narrativa criando novos signos, etc. Enfim, são os poemas visuais que abusam das cores da tinta, das formas, das texturas e até do cheiro (fisicamente falando) para ''brincar'' com a linguagem escrita. Hoje em dia, com a animação computadorizada, então, nem se fale!
Signos e sinais Desde a antiguidade o homem criou sinais para se relacionar com seus pares: sinais de fumaça, sinalização com pedras e uma série de outras marcas, feitas com os mais diferentes materiais. Era preciso se comunicar! E a comunicação escrita foi a forma mais potente dessa comunicação. Contra, quem sabe, a perda da memória.
Mas, se no ocidente os sinais se transformaram em letras que, aparentemente nada tem a ver com o que representam, no oriente o ideograma ainda conserva o desenho original que dá à palavra seu significado. Assim, a palavra homem, ou a palavra rio ou a palavra chuva se assemelham com o desenho de homem, rio, chuva. Mais, cada ideograma traz embutido uma série de conceitos filosóficos de alta voltagem simbólica. Dizem que o desenho de uma casa com uma mulher representa harmonia. Com duas mulheres, discórdia.
Ainda que possamos questionar o valor moral da sentença acima, é inegável seu poder de síntese!
Poema/pintura Sobre a relação texto/imagem, é o escritor Ezra Pound (quase sempre ele!) que ensina que um poema pode tender tanto à sonoridade, quanto ao intelecto e/ou à visualidade. No caso da visualidade, é quando conseguimos enxergar, pela imaginação, uma certa cena descrita, como, por exemplo no poema/pintura, em forma de hai-kai: ''distante horizonte/ brilha nos olhos do cavalo/ o pôr-do-sol''.
Nesse caso, é possível ver a distância do caminho pelo reflexo do olho do animal. Restando ao cavaleiro apenas esperar o amanhecer para continuar sua longa cavalgada.
Cruzamento de caminhos Enfim, embora cada mídia determine o melhor uso para a criação da linguagem, o texto escrito ''chega ao seu ápice como lugar soberano que faz do refletir/pensar sua própria essência'', como diz o artista carioca Ricardo Basbaum, em um cruzamento de caminhos entre texto e ação, palavra e imagem, capaz de criar mapas e estabelecer territórios que estão lá e aqui. Onde música, cor, cheiro, toque e sensações fazem parte de uma mesma percepção de mundo.
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