ALFABETO VISUAL
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 19 de outubro de 2004
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para Folha 2<br> 
''Será que eu vou virar bolor?''
Arnaldo Baptista
Apegar-se ou desapegar-se seja lá do que for: de uma paixão, da vontade de ter um carro, uma roupa nova, de querer que as coisas e as pessoas sejam como queremos pode ser um duro exercício para quem na vida pensa que a verdade do caminho deve reagir às suas vontades - por mais sinceras que sejam - e tenta, de um modo ou de outro, encontrar uma saída para a vida, que não é, senão, uma passagem.
Quando queremos muito algo que nos foge, ou nos foge ao controle de tê-las, geralmente não temos a paciência de aceitar e aprender com aquilo que nos frustra a expectativa e abandonamos o que queríamos como se não fosse digno de nós. Quem nunca passou pela experiência de, ao se sentir rejeitado, querer, também, abandonar aquilo que desejava antes? Quem nunca teve uma atitude infantil, desconsiderando aquilo que antes lhe parecia tão importante? O pior é que, de qualquer modo, ainda ficamos apegados aos sentimentos que aquilo nos trouxera e variamos entre a culpa e o arrependimento. Como disse o filósofo: o outro lado da moeda é também a moeda.
Por exemplo, quando uma pessoa se apega demais a outra, quando alguém se apega demais ao dinheiro ou aos bens materiais que possue, ou, quando se apega àquilo que não possue, fazendo da miséria sua desculpa infeliz, há, certamente, um grau de autoritarismo e apego ao poder tão intensos dentro dela, que ela jamais poderá se satisfazer com o que lhe é disponibilizado à sua volta. Às vezes, uma possibilidade de experiência tão ou mais rica do que aquela desejada. Vítima do próprio medo de perder, ela se torna presa da situação. Mas se o apego às coisas materiais não leva à felicidade, o desapego à elas também não traz nenhuma vantagem. Particularmente porque liberdade não se ganha, se conquista, como diz o ditado. Abrir mão dos nossos direitos é delegar nossa responsabilidade para que outro diga o que é bom ou mau para nós mesmos.
Em nossa sociedade patriarcal - principalmente em um país dependente como o nosso - esse costume é o mais frequente. É só ver os políticos - em época de eleição - dizendo que vão fazer isso e aquilo, vão dar casa, comida, remédios e toda asorte de promessas possíveis, para todos que precisarem. Sabem que a massa de miseráveis - que espera com as mãos estendidas - jamais poderá empunhar suas próprias bandeiras de luta, exigindo a parte justa, necessária e verdadeira daquilo que lhes cabe. O pior, como sempre, é a ignorância e o melhor, nesse caso, é ''ignorar a ignorância'', avançando, sem ressentimentos.
Mas é preciso tomar cuidado com qualquer julgamento moral dos fatos, até porque, como diz o Zen Budismo, ''a moral é uma excelente escrava, mas um péssimo senhor'' e, em se tratando de ética, o assunto pode se transformar em um terrível debate sobre os efeitos que os problemas trazem, ao invés de nos ocuparmos com suas causas.
E, na arte, esse assunto se torna quase que um imperativo estratégico de como se comportar diante da obra a se criar. Para que o produto da arte não caia na superficialidade de se tornar instrumento de ideologias, ou que contenha mensagens para se seguir como norma e padrão de conduta, fazendo apologia de moralismos. Desde, pelo menos, o início da arte moderna a discussão sobre o que é feio ou bonito já não serve para avaliar o que seja ou não arte, que dirá o que é bom ou mau! Sim, porque, em primeiro lugar, a arte nuca estará livre da subjetividade, portanto, aberta as mais variadas interpretações, ainda que o exercício da tradução crítica possa enriquecê-la, o que não quer dizer, esgotá-la. E, depois, uma arte que já vem com bula para seu entendimento, respostas para a sua compreensão, perde totalmente a caracterista que a torna singular no mundo. A surpresa e a invenção ainda fazem parte da criatividade. E encarar que os nossos desejos não correspondidos fazem parte de uma arte secreta que o mundo nos revelou sob a forma da negação, pode ser a grande lição que precisávamos para aprender a aceitar que apego e desapego são partes da mesma trama que nos coloca frente a frente a nossos sentimentos e deles podemos aprender que a vida é uma passagem, como o fluxo das águas de um rio que o envolvem e lhe dão sentido em seu caminho.
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