Palíndromos – A história é essa: tudo o que vai, vem. O que sobe, desce. No poema é assim: ‘‘nasce/ morre/ renasce/remorre’’. E também já se disse que tudo faz parte de uma circularidade onde não há começo, meio e fim, mas tudo parte de um grande movimento onde não há perdas, sobras, nem desperdício. Criar pode ser, também, destruir. Fazer pode ser, também, desfazer. Ir pode ser voltar. Ave Eva! Tudo vira palíndromo na maga mão do mestre.
  Luis Andrade é um cara do Rio de Janeiro, mestre da UFRJ, artistas dos bons, que sabe trabalhar sempre o vai e vem das coisas. O rei da frase que vai e volta, como se essa nem saísse do lugar. Fizemos o palíndromo com o número 69. Porque, de ponta cabeça, ele continua sendo ele mesmo, sem tirar nem pôr. Mas há outros, muito bons, que ele já fez há algum tempo: ‘‘sem sêmem nem mês és’’. Ou: ‘‘é legal! flagele! legal! flagele!’’. E ainda: ‘‘lusíadas. uma musa. daí sul’’. E: ‘‘o nabucodonosor... o sono do cubano’’, ‘‘imã giro origami’’, ‘‘após a gorda droga, sopa’’, ‘‘o cínico, o cínico, o cínico’’, etc.
  Circularidades – Essa mesma idéia parece algo como o renascimento do sentido da frase ou, talvez, do ciclo do ‘‘eterno retorno’’. Pelo menos, se não for tudo isso, com arte tem a ver: vi ver de ar te vi verde arte viver... Essa não dá para voltar, mas é uma frase que pode ser desmembrada e ressignificada a cada leitura, se desenhada como um círculo.
  Duchamp, o inventor dos ready-mades – aquela coisa de pegar um objeto banal do cotidiano, industrializado, tipo um banquinho e colocar no museu como arte – mandou destruir todos os ‘‘originais’’ – que de originais só tinham a idéia – do que ele fez e deixou que os colecionadores de seus trabalhos fizessem outros, em série, como se fossem reproduções de gravuras, ou algo que voltasse ao circuito de arte, agora com a ‘‘aura’’, com o estatuto de arte.
  Rito de passagem – Doente, a genial Jardelina da Silva está descosturando sua criação de roupas originais e personalíssimas. Ela, que criou um mundo com aquelas peças, agora se ‘‘desfaz’’ delas. Em cada camada que ela desconstrói a peça, aparece uma camada que tinha sido escondida, enterrada, camuflada sob a pele de outra, voltando a peça a sua estrutura inicial, de objeto banal de uso cotidiano.
  Retirando as lantejoulas de um boné que ela tinha decorado, aparece um pano que fazia parte de uma mesma narrativa que a levou a criar o boné. Embaixo daquele pano, ou melhor, da história que aquele pano contava, havia outra história, que eram as letras escondidas, que precisavam se ‘‘desamarrar’’, para que a pessoa que tinha dado o boné para ela pudesse, então, ficar livre. Até aquele momento, ela estava ‘‘jurando’’ o boné na pessoa que lhe tinha dado de presente, de um modo que essa ‘‘jura’’ tinha algo a ver com sua vida, com sua mitologia pessoal.
  Depois, era como se ela quisesse se ver livre do peso que o seu trabalho carregava, passando a desfazê-lo. Nesse sentido, Jardelina nos ensina que até no desfazer, no voltar atrás, há sempre a criação. Imperiosa, sensível, surpreendente tanto de frente pra trás, como de trás pra diante.
  Em sua concepção, ela está se desfazendo do mal pelo qual até agora fazia seus ‘‘juramentos’’ ou, nos termos dela, ‘‘dava a letra’’ para entregar tudo para Cristo, dizendo que ‘‘se mentiu, xingou e roubou alguma vez, foi em nome do Senhor, enganada por Lampião’’, que se fazia passar por Ele.
  Em seu ritual, Jardelina nos faz refletir sobre a passagem da matéria para o espírito, do peso para a leveza, do mal para o bem. De algo aparentemente sem lógica, ela constrói uma fortaleza conceitual, cujas relações internas são totalmente cabíveis dentro do que há de mais lúcido e criativo do espírito humano.
  Vida: modo de usar – Isso que a arte pode pensar e refletir, melhor, isso que pode ser a obra da arte é um caminho cujas fronteiras estão sempre em expansão. Com três estratégias próximas – Duchamp, Andrade e Jardelina – cria-se uma noção de renascimento, de transcendência, de circularidade, que faz com que acreditemos que certas pessoas conseguem – sabe-se lá por qual obra e graça – dar um sentido totalmente claro às suas ações nesse nosso planeta, coisa que a maioria de nós nem sonha o que está fazendo aqui.

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