ALFABETO VISUAL
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 13 de julho de 2004
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para a Folha2 
Durante uma partida de xadrez:
Eu te digo isso: a arte é um travesti fazendo ponto em uma esquina suspeita no coração da noite triste. Seu nome é Mona. Mona Lisa. Ela te engana com seu sorriso enigmático, fingindo ser o que não é. Você sabe disso, mas se deixa levar pelo engano porque quer ser iludido. Precisa dessa ilusão. Mais, essa ilusão é a única realidade possível que você pode capturar. Ou pensa que pode. Porque, de fato, Mona Lisa não é de ninguém e ri o riso amarelo de quem tenta decifrá-la. (Movendo sua peça) Sua vez.
Ora, meu amigo, agora você forçou a jogada. Como é que você pode descrever a arte assim, de maneira tão vulgar? Logo a arte, capaz de elevar nossa espiritualidade, de nos trazer prazer estético, tocar emoções, de nos fazer sentir o belo, de buscar ideais. (Olha o tabuleiro) Onde é que você jogou, mesmo?
(Apontando com o dedo) Mas essa concepção é platônica, baseada em um mundo que não existe. Vivemos NESTE mundo e não em outro, o qual desejaríamos. E a beleza pode ser vista em tudo. Até no feio. Mas em Duchamp (1887-1968) essa questão não vem ao caso. O deslocamento produzido por ele na arte leva em consideração a questão da realidade e da aparência como um jogo. Jogou?
E você quer dizer o quê com isso? Que uma mentira pode valer por uma verdade?
Pelo menos para aquela arte que nos fala o filósofo como única força superior contraposta a toda vontade de negação da vida, que é mais forte do que o pessimismo, mais divina do que a verdade, sim. Minha vez.
Vem você citando Nietzsche... (Concentra-se nas peças) Pode jogar.
Quando Duchamp, em 1919, interfere em uma reprodução da Mona Lisa, ao colocar bigode e escrever as letras L.H.O.O.Q., que, em francês, soa mais ou menos como ela tem fogo no rabo brincando com o fato de que ela seria um homem que teria posado para da Vinci não seria exatamente sobre essa mentira, ou sobre esse engano, que ele estaria falando?
Aquilo é uma palhaçada. Brincadeira de criança. Onde já se viu, colocar um bigodinho em uma reprodução de arte e isso ser considerado como, sei lá, arte, também? (Olhando para o companheiro) Não vai jogar, não?
Vou, claro! Mas perceba que o gesto de deslocamento criado foi fundamental para que a arte tivesse algo a dizer, ainda. Ao negar, ele afirma. Ou melhor, ele nega afirmando sobre todos os conceitos que até então se tinha de arte. E depois é bom não se esquecer de que isso ocorre em um contexto de guerra mundial, partindo da experiência do movimento Dadaísta etc.
Banal!
Banal, anti-ideal, anti-ilusório. Há prazer também na destruição criativa. Principalmente quando, no lugar da ilusão, aparece outra, travestida de ilusão. Uma Rrose Sélavy, que é, ao mesmo tempo, uma ilusão e uma desilusão.
Aquelas fotos em que ele aparece travestido de mulher? Uma simulação, isso sim. (Levantando rápido uma peça do adversário) Ei, presta atenção, perdeu seu bispo!
Quem é que precisa dessa máquina celibatária? (ri) Xeque!
É a vida! (resigna-se diante do iminente fim da partida).
Eros cest la vie! Como poderia se interpretar, também.
E o que resta, se nem a cópia é original?
Só o xeque-mate.
Ok, você venceu! (cai o pano).
[email protected]


