Durante uma partida de xadrez:
  – Eu te digo isso: a arte é um travesti fazendo ponto em uma esquina suspeita no coração da noite triste. Seu nome é Mona. Mona Lisa. Ela te engana com seu sorriso enigmático, fingindo ser o que não é. Você sabe disso, mas se deixa levar pelo engano porque quer ser iludido. Precisa dessa ilusão. Mais, essa ilusão é a única realidade possível que você pode capturar. Ou pensa que pode. Porque, de fato, Mona Lisa não é de ninguém e ri o riso amarelo de quem tenta decifrá-la. (Movendo sua peça) Sua vez.
  – Ora, meu amigo, agora você forçou a jogada. Como é que você pode descrever a arte assim, de maneira tão vulgar? Logo a arte, capaz de elevar nossa espiritualidade, de nos trazer prazer estético, tocar emoções, de nos fazer sentir o belo, de buscar ideais. (Olha o tabuleiro) Onde é que você jogou, mesmo?
  – (Apontando com o dedo) Mas essa concepção é platônica, baseada em um mundo que não existe. Vivemos NESTE mundo e não em outro, o qual desejaríamos. E a beleza pode ser vista em tudo. Até no feio. Mas em Duchamp (1887-1968) essa questão não vem ao caso. O deslocamento produzido por ele na arte leva em consideração a questão da realidade e da aparência como um jogo. Jogou?
  – E você quer dizer o quê com isso? Que uma mentira pode valer por uma verdade?
  – Pelo menos para aquela arte que nos fala o filósofo ‘‘como única força superior contraposta a toda vontade de negação da vida’’, ‘‘que é mais forte do que o pessimismo, mais ‘divina’ do que a verdade’’, sim. Minha vez.
  – Vem você citando Nietzsche... (Concentra-se nas peças) Pode jogar.
  – Quando Duchamp, em 1919, interfere em uma reprodução da Mona Lisa, ao colocar bigode e escrever as letras L.H.O.O.Q., que, em francês, soa mais ou menos como ‘‘ela tem fogo no rabo’’ – brincando com o fato de que ela seria um homem que teria posado para da Vinci – não seria exatamente sobre essa ‘‘mentira’’, ou sobre esse engano, que ele estaria falando?
  – Aquilo é uma palhaçada. Brincadeira de criança. Onde já se viu, colocar um bigodinho em uma reprodução de arte e isso ser considerado como, sei lá, arte, também? (Olhando para o companheiro) Não vai jogar, não?
  – Vou, claro! Mas perceba que o gesto de deslocamento criado foi fundamental para que a arte tivesse algo a dizer, ainda. Ao negar, ele afirma. Ou melhor, ele nega afirmando sobre todos os conceitos que até então se tinha de arte. E depois é bom não se esquecer de que isso ocorre em um contexto de guerra mundial, partindo da experiência do movimento Dadaísta etc.
  – Banal!
  – Banal, anti-ideal, anti-ilusório. Há prazer também na destruição criativa. Principalmente quando, no lugar da ilusão, aparece outra, travestida de ilusão. Uma Rrose Sélavy, que é, ao mesmo tempo, uma ilusão e uma desilusão.
  – Aquelas fotos em que ele aparece travestido de mulher? Uma simulação, isso sim. (Levantando rápido uma peça do adversário) Ei, presta atenção, perdeu seu bispo!
  – Quem é que precisa dessa ‘‘máquina celibatária?’’ (ri) Xeque!
  – É a vida! (resigna-se diante do iminente fim da partida).
  – Eros c’est la vie! Como poderia se interpretar, também.
  – E o que resta, se nem a cópia é original?
  – Só o xeque-mate.
  – Ok, você venceu! (cai o pano).


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