ALFABETO VISUAL
Caso contrário todos nós nos suicidaríamos
Marcel Duchamp, reconhecendo a vaidade como característica
humana, em depoimento a Hans Richter (Dada: arte e anti-arte)
A vida, neste mundo, tende à exclusão e à superação dos contrários. Não que isso signifique que dia e noite, macho e fêmea, preto e branco, deixarão de ser o que são para se tornarem cinza, andrógino ou que sempre será alvorecer ou crepúsculo.
Até porque os contrários nos ensinam que são as idéias, os conceitos, nossas coragens e sentimentos que podem e poderão fazer misturas com o que é contrário e diferente em essência, criando outras substâncias que passam a fazer parte da vida.
A superação dos contrários pode ser entendida, nesse caso, como a superação das contrariedades, quando um sentimento como a tristeza nos assalta, ao invés da alegria que esperávamos, perpetuamente, poder cultuar. Essa superação seria, então, saber-se no meio dessas forças em jogo e delas poder tirar partido a nosso favor. Da adversidade vivemos, escreveu o artista Hélio Oiticica, em uma de suas capas/cor usadas para vestir: os famosos parangolés. Ou, como diz o ditado popular: transformar os obstáculos em trampolim. Eis aí o desafio de quem se atreve a cobrir de tinta uma superfície branca. De quem precisa dar um passo firme em terreno escorregadio. De quem, do nada, tira forças para continuar sua caminhada.
No território das idéias - arte inclusa - sempre houve, há e haverá choques entre visões contrárias e excludentes umas às outras. Quantas vezes somos induzidos a pensar que tal lado da história é o certo, tomando partido disto ou daquilo, como se a verdade tivesse um detentor, o bem não existisse sem o mal, a luz não parisse da escuridão?
Não que misturar tudo a torto e a direito seja a solução. Nem pensar que, neutro, não se assume posição nenhuma. Mas podemos usar a seletividade, a ponderação, a inteligência e a intuição para evitarmos sofrer mais que o necessário, quando isso é possível. É preciso ter algum sentimento nobre dentro de nossa alma, alguma altivez para não nos entregarmos a um estado de passividade diante da falta de razão e sentido que parece resistir a tudo, às vezes.
Porque, enquanto tiver o sol do meio-dia, a cor branca, a preta, macho, fêmea, luz e sombra, existirão contrários, adversidades e, por quê, não? tristeza. E também aprendizado, surpresas e superações.
E se a vida é feita de sonhos, esse será sempre o nosso material de trabalho, feito uma boa história para ser contada, um apelo contra a desistência pura e simples do sentido da existência, a luta contra as adversidades. Como uma arte para cultivar.
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