‘‘A ditadura / pulou fora da política / e como a dita cuja é craca-crica / foi grudar bem na cultura. / Nova forma de censura’’.
Itamar Assumpção - letra da música Cultura Paulistana
  Savonarolla foi um sacerdote da Renascença queimado vivo em uma fogueira, por defender a volta da Inquisição, ao controle da produção de arte da época sob a tutela da Igreja, à pregação de uma moral no estilo da Idade Média. Nosso Savonarolla de plantão usa a cultura para criar um escândalo que não existe, apenas para tentar tirar dividendos eleitorais e garantir parcelas de poder que justifiquem sua atuação como edil. Atuando assim, presta um desserviço à cidade e desencoraja a produção cultural, que passa a se tornar um meio de controle e nós burocráticos e não um incentivo cultural, como haveria de ser.
  Nos anos 60, como não tinha porque prender os artistas, a ditadura inventou de difamá-los, atribuindo ao comportamento deles um peso moral, para desclassificar a arte que faziam.
  Mas esses são exemplos ainda grosseiros de uso da força do autoritarismo. Muito mais sutis foram os escravocratas, antes da Lei Áurea, que, descontentes com a quantidade de leite que os escravos bebiam, inventaram que leite com manga fazia mal. Levaram um negro diante de uma praça pública, deram-lhe uma manga para chupar, um copo de leite e o coitado estrebuchou na frente de todos, para que não pairasse dúvidas quanto ao malefício de tal mistura. E a história se espalhou. O leite, ninguém sabia então, estava envenenado.
  Assim se transformou o Estado de polícia implantado ao longo dos anos pelas várias ditaduras no país e no mundo, ao longo da história: inventaram uma história de terror e agora o Estado já não precisa gastar mais com agentes repressores, pois há um cão de guarda implantado dentro da cabeça de cada um pronto para dilacerar qualquer desejo de liberdade que esteja no raio de ação entre a coleira e a corda esticada pelo cão afoito.
  A censura, uma das faces mais visíveis da exclusão, se manifesta de maneira que, muitas vezes, nem temos consciência do quanto ela faz parte do nosso dia-a-dia. Como diz Deleuze: o próprio critério de qualidade é uma delas.
  Esses salões de arte espalhados pelo país. Esses concursos de trabalhos e projetos de arte, etc. fazem esse mesmo tipo de jogo. Como uma loteria eles se sustentam da quantidade de inscrições enviadas, para referirem-se aos seus eventos como um ‘‘grande sucesso devido ao interesse público’’. A medida, no caso, é a quantidade de pessoas que ficam do lado de fora, garantindo a sustentação de um sistema onde sempre existem os que dizem - no caso da arte - o que é ou não é válido.
  Mas, talvez, o pior tipo de exclusão seja aquele que prega a indiferenciação. Esse sim, porque é um jogo em que coloca os interesses de cargo, de hierarquia, de influências, acima da inteligência humana, onde tudo se esbarra na burocracia, nos ‘‘códigos internos’’ da instituição, no ‘‘infelizmente é assim que tem que ser’’.
  Quando alguém diz que o que você faz é muito mais interessante do que ele pode lhe oferecer, quando fazem apologia da ignorância, desprezando o que você está dizendo com um ‘‘é muito para minha cabeça’’, quando te rotulam de qualquer coisa que deveria ser um elogio, mas acaba se tornando uma blague - como chamá-lo de intelectual ou artista ou doutor, por exemplo - então é preciso estar atento para não responder nos mesmos termos em que lhe fazem o ataque, geralmente aceitando o fato de que, talvez, melhor mesmo seria cair fora. Nessa hora é preciso se mostrar à altura de suas condições, aceitando que o problema é do outro e não seu. E que essa tentativa de exclusão só o tornará ainda mais ciente de seu papel como um agente, cuja aparente ordem se descontrola diante de sua própria inquietação. Uma ordem imposta é produto do autoritarismo e não de uma liderança capaz de administrar diferenças entre posicionamentos e visões não necessariamente iguais.
É preciso fazer com esse cão afoito instalado dentro de nós, esse policial invisível, esse agente repressor, o que foi feito com o sacerdote Savonarolla. É preciso, ainda, muita arte nessa vida para acabar com os repressores de plantão!

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