ALFABETO VISUAL
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 12 de novembro de 2003
Rubens Pillegi Sá<br> Especial para Folha 2 
Para pensar sobre arte e ativismo, a intersecção entre arte e política, é preciso primeiro questionar o que é ARTE e o que é POLÍTICA e tentar compreender se elas ainda existem como categorias autônomas e dissociáveis.
Depois é tentar compreender o contexto na qual elas passam a existir para poder tentar desempenhar algum papel que nos caiba nesse momento em que a UTOPIA de uma sociedade perfeita parece desmoronar diante do atual quadro das ideologias frente ao império que reluz com seu brilho falso, com a promessa do consumo. E também da incapacidade da ideologia como condutora das mais doces promessas de um mundo sem exploração do homem pelo homem, do respeito à natureza. Em última instância, da manutenção de vida no planeta.
Então, para falar sobre ARTE e POLÍTICA é preciso separar alguns conceitos para depois tentá-los reunir em nova configuração.
Por exemplo: o marxismo. A relação capital X trabalho, mais valia, etc. que é só a ponta mais visível do iceberg, porque não podemos partilhar de pontos de vista dogmáticos. A vida se dá também pelas frestas, brechas, falhas, pelos vermes, fezes, esperma, desejo, contato, criatividade, pelas pulsões e paixões. Quando é que a arte não foi política? Quando é que a linguagem deixou-se aprisionar pela Gestapo das encomendas oficiais? Pela polícia política das ideologias?
Em seu nascedouro, toda comunicação causa estranhamento. Mas, em se tratando de arte, sua vocação é tornar a percepção mais atenta ao entorno.
Pensar a relação ARTE/POLÍTICA é pensar na questão do TRABALHO como forma de existência, cultura e sobrevivência no mundo. Daí nascem os rituais, foi daí que nasceu a arte.
O trabalho do homem modifica o meio em que ele vive. E tudo é trabalho, segundo a concepção da física que diz que trabalho é a energia gasta por um corpo para se movimentar de um ponto A até um ponto B. Mas o trabalho, para o ser humano se tornou um fardo pesado demais para ser carregado, principalmente no momento em que a tecnologia torna, cada dia mais o trabalho manual dispensável.
Pensar essa relação ARTE/POLÍTICA é pensar a questão do TRABALHO como relação das forças em movimento capazes de mudar, de interferir no meio.
Arte é sobretudo ação, atitude. E, se estamos falando em meio e em atuação, estamos inventando uma noção, que é a noção de contexto, que é o lugar onde estamos aptos a atuar, tecendo a história no momento mesmo em que estamos pensando e atuando nela e sobre ela.
Vivemos uma crise institucional e de valores sem precedentes. O capital, por exemplo, já não tem mais pátria, tem donos. Com a TV e a internet, qualquer um pode saber sobre a situação da bolsa de valores no mundo todo, naquele horário em que se conecta nessas mídias. Qualquer um pode comprar, seja lá o que for, de qualquer lugar, para qualquer outro lugar no mundo Não há mais fronteiras fixas para a circulação de bens, serviços e capital.
Mas isso quer dizer, também, que, onde quer que estejamos, existe a possibilidade de atuar, interferindo diretamente na cadeia produtiva do sistema, de um modo geral, podendo, para isso interferir seja em sua casa, sua tribo, sua comunidade, sua cidade, seu país. Seja na rede mundial de computadores. Não é preciso mais levar sua mercadoria, seu serviço, sua arte para o que é chamado de eixo de poder, como São Paulo/Paris/NY/Rio de Janeiro. O centro nervoso do mundo agora circula além de seus eixos radiais. Não foi esse o fenômeno acontecido com o hip hop?
A própria padronização cultural tratou de solapar, também, as diferenças entre povos, crenças e costumes. Aqui, no Norte do Paraná, por exemplo, uma das mais caras questões a se debruçar trata do latifúndio e da monocultura. E é a partir da consciência desse cenário que um certo tipo de intervenção pode ser realizada, como diria Joseph Beuys : ''tratar um trauma social pela arte''.
Mas para a realização de um projeto como esse é preciso pensar estratégias. Porque se este é um momento de crise, também é o momento ideal para se criar conceitos, rizomas, atravessamentos, trans-atravessamentos, além trans-atravessamentos, que seriam, basicamente:
1 - Hibridização. Contaminação entre áreas diferentes. Esgarçamento de fronteiras. Psicologia, antropologia, física quântica, tecnologia de ponta. É preciso compartilhar essas ferramentas do conhecimento, para usá-las criticamente;
2 - Qualquer manifestação pode ser ou não um ato de arte, depende de quem participa, depende dos olhos que vêem. A arte não necessita mais de um olhar crítico para julgá-la, portanto despreocupe-se sobre o que vão achar de sua atitude.
3 - Não necessidade de um órgão regularizador e avalizador do trabalho artístico: como galerias, museus , críticos e curadores, por exemplo.
4 - Redes. Grupos. Não-autoria, ou autoria compartilhada.
5 - Processos ao invés de obras, objetos e mercadorias. Idéias em circulação.
6 - Começo, meio e fim apenas como convenção, não como idéia de um acontecimento espetacular.
* Trechos da palestra proferida no ENEP (Encontro Nacional dos Estudantes de Política), na Universidade Estadual de Londrina, em outubro de 2003.
Hoje, excepcionalmente, deixamos de publicar a coluna Alfabeto Visual na .


