ALFABETO VISUAL
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 20 de maio de 2003
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para a Folha 2 
''Na janela'' (1998), fotografia de Val: ainda que a arte possa comunicar uma experiência, ela é pessoal e intransferível.
Arte é artifício. Mas é através desse artifício que se pode encontrar o caminho para dizer verdades que, de outro modo, seria impossível fazê-lo. Sobretudo porque da arte não se espera verdade, mas beleza. E dos artistas não se esperam ações, atitudes, intervenções na vida prática do cotidiano, mas delírio.
E é através de toda essa licença poética que foi adquirida ao longo dos séculos, que o artista, hoje, pode dar-se ao luxo de delirar no cotidiano, transformando em arte até a mais suja e mais abjeta forma de se existir no mundo. A vida pulsa com a mesma intensidade tanto no cheiro fétido de um esgoto, quanto no perfume de uma flor que nos chega com o vento, nos roubando a distração e os sentidos. Cabe ao artista saber tanto mover-se nas regiões mais sombrias da lama humana, quanto nas mais claras, transparentes e brilhantes.
Em um momento confundido com bruxo, em outro com alquimista. Em um momento quase um santo, pintando anjos na cúpula da capela. Em outro, um demônio rebolando na beira do precipício. Contradição? Por que não? O mundo que se conhece não é o mundo que existe como algo dado, pronto e natural. O mundo que se conhece é um mundo em construção, em transformação, em mudança. Quem tem um mundo idealizado não pode querer mais nada da vida, mas quem tem um mundo para viver, só pode desejar a vida como ela se apresenta: com suas surpresas e mistérios. Em seu frágil equilíbrio, em sua gigantesca abertura para ser decifrada e desfraldada, a cada novo instante.
Por isso, como se diz, o lugar menos provável da manifestação artística é na arte. Lá o fenômeno já está cristalizado. Aquele que espera encontrar mais sentido em uma tela de projeção de uma tela de cinema do que no vento, certamente estará menos propenso a pegar uma gripe do que aquele outro que enfrentou os temporais, no entanto um conheceu a volúpia, o outro apenas pôde ter uma idéia dela projetada. E essa diferença é fundamental para o nascimento da liberdade. Campo maior onde toda a manifestação essencial do ser humano possa ser desejada.
Arte? Qualquer insubordinação pode ser uma manifestação artística. Qualquer gesto de resistência frente à opressão. Qualquer atitude corajosa frente à covardia dos imbecis. Ela não precisa estar, necessariamente, em um quadro de museu, em uma obra histórica. O que se vê ali são indícios, marcas, caminhos, mais nada. Perdeu sua aura: é só uma estátua, um boneco de cera, uma relíquia histórica, quando muito.
Mas, então, como é que ela é artifício, a arte, se está tão dentro da vida e a vida nos foi dada como natural? Simples, porque o mundo está em contínuo processo de criação. E essa criação é produto da elaboração de cada um, individualmente. E é preciso estar atento, aberto e despreocupado para sentir a brisa do vento como um sopro inaugural da vida, um momento de poesia, um instante a ser sentido além da funcionalidade e da regra imposta para se viver em padrões determinados e deterministas.
Então, toda vez que o acaso lhe vier brindar com um presente inesperado: seja o cheiro de uma flor perfumada, seja um golpe duro de digerir, é melhor aceitá-lo como parte do mundo e da vida, porque do contrário estaríamos inventando não algo para ser fruído como objeto artístico, mas uma nefasta neurose a nos impedir viver a vida como ela se apresenta: com tudo o que há de abjeto e maravilhoso.
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