ALFABETO VISUAL
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 11 de março de 2003
Rubens Pileggi Sá<br> Especial para a Folha2 
A arte como matéria do pensamento
Se a arte é ''uma cosa mentale'', como dizia Da Vinci, no século 16, a respeito da pintura, e ''a arte é a definição da arte'', como afirma o artista conceitual Joseph Kossut em seu texto ''Arte depois da filosofia'', de 1969, então só se pode dizer que ela expressa coisas como a beleza e o sentimento se isso também for parte de um pensamento que possa ser englobado como tal. E seria ele o pensamento a própria arte. Pode-se dizer: menos pela vontade criativa do artista e mais pela definição do ''objeto artístico''.
Conclui-se daí que, se o pensamento se reconhece, então isso deve ser algo além e aquém do próprio pensar. Tautologia: o pensamento que se pensa é arte. Mas, assim, estamos condenados a um paradoxo. De um lado porque tudo é matéria de pensamento. E neste caso tudo seria arte. Do outro lado, só podemos considerar algo como arte a partir de um lugar para sua existência. Como é que algo poderia se conter?
Confuso? Sem dúvida. Discutível? Mais ainda. Mas não estamos mais na época em que as coisas possam simplesmente ser julgadas como boas ou más, belas ou feias, como nos fazia crer o determinismo positivista, ou mesmo Sócrates que dizia que ''belo é o que é bom e justo''. Porque esta medida de avaliação e julgamento já não dá conta mais da complexidade do mundo em que vivemos.
Depois da ''morte de Deus'', em Nietzsche e da ''morte do homem'', a partir de filosofias como o existencialismo, pode-se dizer que vivemos agora ''a morte das coisas'' e, mais ainda, a ''morte da natureza'' enquanto campo de forças que se opunham ao pensamento, ou seja, à civilização. Temos diante de nós um lugar onde não se requer mais um pensamento que revele, já que o próprio pensamento é a sua revelação. Daí sua indistinção, sua informidade; a volta ao Caos original.
Onde tudo é arte, nada mais o é. E não é à toa que movimentos que vêm desde o Dadaísmo no começo do século passado proclamam a ''morte da arte''. Mas, como já vimos, o que pode ser chamado de Arte deve pertencer a um lugar, ainda que esse lugar ultrapasse a idéia comum que se tem sobre ele, se expandindo para fronteiras que se manifestam como a arte postal, a arte ambiental, intervenções urbanas, etc., e ocupe, inclusive, os ''espaços mentais'', fazendo e sendo capaz de transformar tudo em matéria de pensamento novamente.
Se entendermos que a vida, para retornar deste Caos original, deveria estar de acordo com esse princípio primeiro e primordial de indissociação e unidade, então deveríamos primeiramente aceitar que todas as nossas relações com o mundo pudessem ser intermediadas por rituais de passagem, pois só assim a existência faria sentido, em lugar deste viver maquinal onde já não se pensa mais nas coisas, simplesmente se cumprem funções. E neste caso a arte é o que é colocado como arte e nos tornamos meros contempladores de algo dado como verdade. Esse filtro, essa teleologia é o que nos prende e também nos apóia para nos lançarmos nessa aventura de pensar o mundo como estrutura aberta e ao mesmo tempo como uma só manifestação de todas as coisas.
Nem Deus, nem o Homem, nem a Arte, nem a Natureza morrem porque não nasceram ainda. E a idéia e o pensamento estão e estarão prontos, sempre, para emergir deste Caos informe chamado Vida.
P.S O espaço desta coluna de hoje foi cedido extraordinariamente às opiniões do filósofo espiritualista Hilário Mertz, depois de um retiro onde vozes anunciaram que depois do Apocalipse o Paraíso retornará.


