''Tomais e comei todos vós, este é o meu corpo que é dado por vós''.

Sabe-se que a ''descoberta'' do Brasil pelos europeus foi capaz de atiçar a imaginação do povo além-mar, fascinando e horrorizando as pessoas sobre as coisas que se contavam daqui. Principalmente porque os nativos andavam pelados, não trabalhavam e comiam carne de gente. Uma boa estratégia para ''satanizar'' os indígenas e considerá-los inimigos ferozes de Deus e do Império. Daí ao extermínio de várias nações foi um passo. Não houve diálogo, não houve reciprocidade, apenas indiferença a quem, para os cristãos, nem cultura tinham. Mas nem todos pensavam da mesma forma, já naqueles idos de 1500 para frente. Montaigne foi um deles. E escreveu um belo texto intitulado ''dos canibais'' mostrando que a selvageria de seus contemporâneos era muito mais vergonhosa do que aquela dos indígenas, que condenavam.
Foi só muito tempo depois que o Movimento Modernista Brasileiro, a partir dos idos de 1922, começou a resgatar a questão da antropofagia como proposta estratégica de incorporação para se chegar a uma identidade cultural nacional. Com o ''Manifesto Antropófago'', de 1928, Oswald de Andrade prega que devemos aproveitar o que interessa de outras culturas e misturá-las em nosso ''caldeirão das raças'', construindo algo original e novo, ao invés da importação de modelos e padrões sem nenhum critério de valor.
Tudo isso já foi, aliás, bastante deglutido e digerido enquanto discurso intelectual, mas resgatar certos pensamentos e comportamentos do modo de viver indígena no seio de nossa cultura ainda parece um tanto distante. Talvez nem tanto.
Dias atrás, enquanto esperava para ser atendida na fila do banco, Jardelina da Silva - personagem conhecida em Bela Vista do Paraíso - foi abordada por um senhor que reclamou de suas ''ações'' (que ela chama de despacho) sobre o túmulo do pai dele no cemitério. É assim, há anos Jardelina sobe sobre um túmulo de mármore onde um Jesus de bronze está de braços semi-abertos. Lá ela dorme, reza, come, conversa com Jesus, dança e fala.
A abordagem foi suficiente para que ela começasse um discurso feroz na fila do caixa, que logo estava vazio para que ela fosse atendida. Disse ao senhor que não era por causa dele, nem de sua posição na cidade que subia no túmulo, mas por uma pessoa a quem considerava pai, de nome Tibúrcio, que tinha sido empregado do pai dele na roça e que era pago com costela de boi e restos de carcaça de animal morto como salário. Contando a quem quisesse ouvir que ela mesma tinha comido daquela carne quando visitava o parente. ''Não é atrás da carniça do seu pai que eu subo na tumba, mas é atrás do Tibúrcio, que serviu de comida para ele''. Dando a entender uma relação canibalista de exploração de trabalho, tão comum à época em que se necessitava de mão-de-obra no campo, enquanto o café era o principal produto agrícola da região.
Não cabe aqui um julgamento moral. Mas quanto ao pensamento, a princípio oblíquo de Jardelina, a lembrança do poema ''Canto de morte de um prisioneiro'', do poeta alemão Goethe, baseado no relato de Montaigne sobre os canibais brasileiros vem a calhar:

Vinde, vinde todos
Pois não podereis me dobrar
Com vossas esperanças e ameaças.
Vede, estou aqui, um prisioneiro,
Mas vencido ainda não!
Vinde partilhar de meus despojos
E partilhai assim de
Vossos ancestrais, vossos pais
Que meu pasto já foram!
Esta carne que vos estendo,
Tolos que sois, é a vossa,
E em meus ossos está
De vossos ancestrais o tutano.
Vinde, então; vinde, e em todo o bocado
Vosso paladar o reconhecerá''.

Voltando. Jardelina revela em sua fala um pensamento mágico, e diz que no tempo em que havia milagres, se um filho fizesse malcriação para a mãe, se transformava em lobisomem. Mas como todo mundo começou a virar lobisomem, Jesus resolveu acabar com os milagres.
Quando a conversa chegou ao fim, ela fez questão que o visitante curioso por suas histórias levasse um pedaço do pão caseiro que acabara de fazer: ''Tomai e comei todos vós'' é o que parece querer dizer.

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