Não sei se tem a ver falar de uma arte feminina ou masculina, mas talvez, sobre procedimentos femininos e masculinos seja possível fazer certas observações. Enquanto um se projeta para fora, se exterioriza, vamos dizer, é explícito, o outro, como concha, sempre guarda um segredo a ser revelado aos poucos, na medida em que nos inteiramos e nos deixamos ser tomados por alguma espécie de relação mais acolhedora. Embora isto não seja regra geral, pelo menos esta é uma observação que parece pertinente quando comparamos o trabalho feito por homens e mulheres.
Em cartaz no Rio de Janeiro, duas exposições traduzem bem esse sentimento. Uma no Centro de Arte Hélio Oiticica, do artista taiwanês/norte-americano Tehching Hsieh, com suas performances de longa duração, simples, eficientes e contundentes. A outra, na galeria Arthur Fidalgo, em Copacabana, da artista Fernanda Gomes: uma instalação feita com vários móveis velhos e coisas.
Na primeira, a descrição já diz tudo. Desde 1979, o artista faz performances onde se tranca em uma cela durante um ano inteiro, sem falar com ninguém, sem ler, sem ouvir aparelhos sonoros, somente recebendo alimento vindo de fora. Ou bate um cartão de ponto de hora em hora, também durante um ano, filmando um
‘‘quadro’’ de cada vez, sendo que um segundo de filme corresponde a 24 quadros e o filme inteiro dura seis minutos, o tempo de um ano, sem intervalos. A modificação visível é somente seu cabelo, que é raspado no inicío da performance e vai crescendo ao longo do tempo do trabalho. A documentação toda está lá, como os cartões de ponto que provam a veracidade de seu esforço. O incrível é que o artista, nas 8.640 vezes em que bateu o cartão de ponto, tem uma margem de erro de apenas um e meio por cento. Mais: um ano amarrado por uma corda com uma mulher, sem poder tocá-la. Um ano do lado de fora de portas, sem poder entrar em nenhum lugar fechado como cavernas, automóveis, ou edifícios, apenas com sua mochila e sleeping bag nas costas, pelas ruas. O propósito só é quebrado uma vez, quando a polícia de Nova York o leva para o distrito policial confundido com um vagabundo. Mais ainda: um ano sem falar, sem ver, sem ouvir, sem pensar em arte. Depois, de 86 a 99 ele fez uma outra performance, sobrevivendo a ela, deixando como testemunho apenas um quadro com esta informação. Atualmente ele não faz mais nada.
No caso do trabalho da Fernanda Gomes, as coisas não se dão assim, muito pelo contrário. Quem passa pela vitrine da galeria onde ela está expondo seu trabalho, pode pensar que se trata de um depósito de móveis velhos, até porque aquele lugar é uma espécie de shopping de antiguidades. Mas vai estranhar porque, aqui e ali, uma ou outra coisa não parece bater com esta certeza: dois copos cheios d’água, com duas colheres de café grudadas uma à outra dentro deles. Um lápis com as duas pontas apontadas, suspenso. Um pedacinho de couro costurado, debaixo de uma das mesas, coisinhas. Para quem vai a uma exposição de arte esperando algo que possa ser absorvido em um impacto, se decepciona, a princípio.
Aos poucos, tudo parece disposto com muita atenção. Há precisão ali. Mas não é isso que importa. Abaixo para ver se há algo por debaixo, escondido. Há. Mas também, pouco importa. Percebo um cheiro de eucalipto vindo de uma das mesas.
Enfio meu nariz entre a gaveta semi-aberta e um pedaço de vidro, mas dou de cara comigo mesmo, em um pequeno espelho. Recuo. Curioso, quero mais. Uma lente de aumento sobre uma pequena lâmpada parece levantar a percepção para além do espaço construído. Pouco importa. Há coisas a olhar. Posso abrir as gavetas? Bem, não é uma obra interativa, a autora diz. Compreendo a coisa como um jogo. Espero mais um pouco. Ela nem cedeu nem proibiu. Eu abro um pequeno álbum de selos com alguns trabalhos, muito delicados. São peças independentes, informa. O que parecia algo solto, quer dizer independência. De uma das gavetas de uma mesa carcomida de cupins - onde ela coloca grãos de pimenta no buraco feito pelos insetos - retira alguns desenhos. Podem ser vendidos, separadamente. E as mesas? Eu pergunto. Serão devolvidas. Tem até uma garrafa de uísque dentro da gaveta. Elaborações. Tudo aquilo me envolve. Ela ainda diz que gostaria de fechar o ambiente ao público passante. Nada é explícito. Tudo é muito claro. Pouco importa.

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